quinta-feira, 23 de julho de 2020

DIÁRIO TARDIO I - Pequena Peste



DIÁRIO TARDIO I


PEQUENA PESTE
                         

Sobre peste, deparei com uma na infância, isto é, quando era menino, porque infância nunca conheci. Fui homem desde os seis anos, ou antes, porque sendo o mais velho de uma récua de pai ausente, era chamado por todos de “o homem da casa”. Tinha que ser forte, adulto, servir de exemplo. Perdão, paciente leitor, isto é assunto aborrecido, piegas, talvez melhor tratado mais tarde. Com licença. Daquela época, que não me parece longe, me recordo de uma doença que apareceu pelos ermos onde vivíamos. As pessoas caíam de febre, com toda espécie de mal estar, andadeiras e vômitos, iam enfraquecendo, se finando e, opilados, em pouco se acabavam. Tinha eu lá meus sete ou oito anos, quando caí em prostração daquela enfermidade. Acomodado em um catre de braços de buriti. Tinha também um primo da minha idade na cama ao lado. Via minha mãe indo de lá para cá, feito lançadeira, disfarçando para que eu não soubesse o que acontecia. Perguntava pelo primo que ontem gemia na cama próxima, e para me acalmar dizia que estava brincando lá fora. Porém a mim, não deixava brincar. Também, mesmo que deixasse, meu corpo desmilinguido não encontrava forças para atirar de bodoque, trepar nas mangueiras, pescar no riacho ou correr nos jogos pueris daquele tempo. Me intrigava o gemido arrastado, a respiração em roc-roc-roc do serrote traçando madeiras e abrindo tábuas. Aquilo era dia e noite, porque, como soube depois, as tábuas eram para a construção de caixões. Nas vizinhanças, muitos pereciam e demandavam um enterro cristão. Minha mãe, sabendo dos perigos que aquela doença trazia e com o filho mais velho prostrado, a tempo de ser engolido pela peste, procurava desesperada algum socorro. Já utilizara todas as mezinhas, simpatias e benzeduras da farmácia e da sabença caseira. Soubera, que mesmo na família, aquela doença vinha ceifando muita gente. Não se esquecia de uma mulher que perdera, em uma semana, sete filhos e o marido. Ali mesmo naquela casa, há pouco, morrera o menino que se deitava ao meu lado. Apenas amostras. Poucas pessoas se levantavam, das acometidas pela doença. Mesmo sem muitas letras, sabendo apenas desenhar o nome e garatujar algumas palavras, a mãe tomou uma decisão heroica. Pegou uma folha de caderno, anotou ali a cara e o jeito de caminhar da doença, hora por hora do dia, também das noites. As feições do doente e as mudanças que iam ocorrendo em seu semblante e corpinho impúbere. Vendeu a metade de seu patrimônio – uma das duas únicas novilhas que ganhara de um irmão -, ajustou um positivo e o enviou à cidade mais próxima, a cavalo, levando seu relato para um médico.  Falava do doente e a malsinada febre. O positivo levou uns dois dias para ir à cidade e voltar com as recomendações do esculápio e alguns remédios. A mãe seguiu, ao pé-da-letra, as prescrições anotadas e explicadas pelo facultativo. Cuidar da alimentação do enfermo. Só coisa leve, papinhas de arroz. Nada de gorduras, nada de comidas cruas, nem mesmo frutas. Água, só fervida. Unção de álcool três vezes ao dia, orientando também como atender suas necessidades, evitando contato com lama, sujeiras, excrementos e qualquer outra imundície, e outros doentes. O pequeno enfermo chorava, sentia-se prisioneiro, torturado por aquela disciplina cruel. O tempo passou célere, pois é assim que o tempo corre na infância da gente. Devagarinho o menino foi tomando ânimo, se movendo no catre, começou a sentar-se e, em poucos dias, já ficava de pé e caminhava, mesmo cambaleando, meio cai-água, ou   apoiado pela mãe. Assim, escapei daquela enfermidade e até hoje não atento para o que seria. Diziam que era, tifo, febre tifoide, maligna, e outras febres. O certo é que naquelas distâncias, nas barrancas do rio, sem médico e assistência de saúde, ninguém ficou sabendo que mal era aquele. Sabiam apenas que matava pessoas e cada vez mais precisavam de novas covas. O serrote traçador teve que fatiar muitas tábuas de cedro, arrastando dia e noite seu pesado sofrimento. A doença deixou muitas lembranças, quase todas más. Cada um tinha perdido um filho, mãe ou irmão. Não era fácil esquecer porque havia o luto costumeiro e, não raro, nos cemitérios improvisados, à beira das estradas, pedaços de mortalhas se espalhavam, arrancados das tumbas por tatus heréticos. Escapei. A praga me esqueceu. Daqueles dias, em névoa, recordo ainda o lufa-lufa da mãe, o ruflo de seu vestido entrando e saindo do quarto, as reprimendas impositivas e sua mão me levantando encaminhando para o mundo, por onde ainda hoje caminho. E às vezes, quando fraquejo e resvalo sobre as carnes e os próprios ossos, no escuro, ainda é a sua mão que, exausto, espero e procuro.


(De Diário Tardio)
Maio, Goiânia, ano COVIDE de 2020




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