segunda-feira, 24 de agosto de 2020

INCOMUNICÁVEL

 

 

 

NCOMUNICIÁVEL



 

INCOMUNICÁVEL

 

 

Os seres não se tocam

na contramão do dia.

Bólides de medo e distância,

os seres se proíbem

em data e pleito

                           que se adia.

 

Irreconhecidos, permanecem

à porta das lembranças

como se um velho,

ao crepúsculo, recolhesse

a mão de uma criança.

 

Os seres não se tocam

Na palavra geografia,

os corpos não são vias,

não são portos ou caminhos.

São ermos e selvas

                         E desertos.

 

O corpo é uma praia

que outro corpo invoca

com seu aceno de onda

tremendo sobre distância.

 

Os seres não se tocam

na dor de ser presente,

ofertam-se em casca

e negam-se em semente.

 

São margens e consentem

intactos territórios.

Por isso, é tudo abismo

o que a mão prolonga,

é tudo abismo

o que o beijo alcança.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

ESTIO


 

I – Compáscuo

 

O cerrado exalta sua teimosia humana.

Lá estão os pastos ressequidos,

 gáudio magro para os estivais rebanhos.

Clamam no pastoreio a exaustão das ervas.

Caminham para o vento eriçando os colmos exilados

na estação mais dura.

Malgrado o azul sem augúrio, de céu nublado e chuva,

ainda vou ceifando flores

no compáscuo de luz solar e tardios rebanhos.

Com humana teimosia a terra exalta a nascitura brisa,

flash de suave secura, unhas de sede.

E como quem dá à luz um plenilúnio

as minhas mãos desenham o que transpira,

cujo destino é ser a trilha de bordada sombra,

 o verde suspirar de uma vereda.

 

 

II – Terra

 

Sempre esteve aí, sob a marcha inexorável.

Altas florestas, rios, montes, e mesmo o insatisfeito mar

se escora em sua alma côncava.

Impassível, balouça a rede do mundo

desfilando nos turvos céus o fósforo inalcançável das estrelas.

Aferro-me amoroso à epiderme

de seus vulcões acesos,

no abismo escuro espero animosa flor de erupções.

Sou apenas o pequeno e nascituro desafio da carne.

Meu ajuntado de músculos e ossos

carregam em seu farnel de sonhos

cidades, muralhas e destroços.

Deixei a exaltada arquitetura das multidões.

Ínfima rebeldia, caminho por vales, cerros e desertos.

Vem, acolhe o magro espólio, o desamado comodato:

desta alma débil, extremo canto e dor impura.

No dealbar da estrada havia sendas. Sem cavalgar, voltei.

Abandonado, nas estações candentes,

contido em barro, esperei sozinho.

 

 

III - Revoadas

 

Logo será a manhã das revoadas.

Recolho sangrando de crepúsculo aquelas memoriais jornadas.

Na altura, em sobrevoo, deixam adeuses às várzeas

em celebração de pátria.

Chegar e partir é dor - paroxismo extremo.

Nascer e morrer é nossa conta de fel e de suor.

Viver inclui cansaço e sede de alcançar

a falta que um porto apenas inaugura.

 

Logo será a manhã das revoadas.

Embarcaremos nas velas embebidas de vento e espuma.

Ai, lágrimas escorrendo nas praias!

Ai, desfiado pranto de sal pelos trapiches

desgarrados de todo chão e todo azul.

Em baixo a terra, o berço amado - torrão,

aconchego e infância de lidimas estações.

 

Logo será a manhã das revoadas.

Tudo que resta para trás é desalento.

Para lá aportam os amores verdes, sem outonos.

Por lá padecem as infâncias que não vingam,

corpos curvados, mão vazias e canções

que, magoadas, apenas balbuciam

o pizzicato de todo desencanto.

 

 

 

Pacha-Mama, 25 de julho de 2020

 

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 23 de julho de 2020

DIÁRIO TARDIO I - Pequena Peste



DIÁRIO TARDIO I


PEQUENA PESTE
                         

Sobre peste, deparei com uma na infância, isto é, quando era menino, porque infância nunca conheci. Fui homem desde os seis anos, ou antes, porque sendo o mais velho de uma récua de pai ausente, era chamado por todos de “o homem da casa”. Tinha que ser forte, adulto, servir de exemplo. Perdão, paciente leitor, isto é assunto aborrecido, piegas, talvez melhor tratado mais tarde. Com licença. Daquela época, que não me parece longe, me recordo de uma doença que apareceu pelos ermos onde vivíamos. As pessoas caíam de febre, com toda espécie de mal estar, andadeiras e vômitos, iam enfraquecendo, se finando e, opilados, em pouco se acabavam. Tinha eu lá meus sete ou oito anos, quando caí em prostração daquela enfermidade. Acomodado em um catre de braços de buriti. Tinha também um primo da minha idade na cama ao lado. Via minha mãe indo de lá para cá, feito lançadeira, disfarçando para que eu não soubesse o que acontecia. Perguntava pelo primo que ontem gemia na cama próxima, e para me acalmar dizia que estava brincando lá fora. Porém a mim, não deixava brincar. Também, mesmo que deixasse, meu corpo desmilinguido não encontrava forças para atirar de bodoque, trepar nas mangueiras, pescar no riacho ou correr nos jogos pueris daquele tempo. Me intrigava o gemido arrastado, a respiração em roc-roc-roc do serrote traçando madeiras e abrindo tábuas. Aquilo era dia e noite, porque, como soube depois, as tábuas eram para a construção de caixões. Nas vizinhanças, muitos pereciam e demandavam um enterro cristão. Minha mãe, sabendo dos perigos que aquela doença trazia e com o filho mais velho prostrado, a tempo de ser engolido pela peste, procurava desesperada algum socorro. Já utilizara todas as mezinhas, simpatias e benzeduras da farmácia e da sabença caseira. Soubera, que mesmo na família, aquela doença vinha ceifando muita gente. Não se esquecia de uma mulher que perdera, em uma semana, sete filhos e o marido. Ali mesmo naquela casa, há pouco, morrera o menino que se deitava ao meu lado. Apenas amostras. Poucas pessoas se levantavam, das acometidas pela doença. Mesmo sem muitas letras, sabendo apenas desenhar o nome e garatujar algumas palavras, a mãe tomou uma decisão heroica. Pegou uma folha de caderno, anotou ali a cara e o jeito de caminhar da doença, hora por hora do dia, também das noites. As feições do doente e as mudanças que iam ocorrendo em seu semblante e corpinho impúbere. Vendeu a metade de seu patrimônio – uma das duas únicas novilhas que ganhara de um irmão -, ajustou um positivo e o enviou à cidade mais próxima, a cavalo, levando seu relato para um médico.  Falava do doente e a malsinada febre. O positivo levou uns dois dias para ir à cidade e voltar com as recomendações do esculápio e alguns remédios. A mãe seguiu, ao pé-da-letra, as prescrições anotadas e explicadas pelo facultativo. Cuidar da alimentação do enfermo. Só coisa leve, papinhas de arroz. Nada de gorduras, nada de comidas cruas, nem mesmo frutas. Água, só fervida. Unção de álcool três vezes ao dia, orientando também como atender suas necessidades, evitando contato com lama, sujeiras, excrementos e qualquer outra imundície, e outros doentes. O pequeno enfermo chorava, sentia-se prisioneiro, torturado por aquela disciplina cruel. O tempo passou célere, pois é assim que o tempo corre na infância da gente. Devagarinho o menino foi tomando ânimo, se movendo no catre, começou a sentar-se e, em poucos dias, já ficava de pé e caminhava, mesmo cambaleando, meio cai-água, ou   apoiado pela mãe. Assim, escapei daquela enfermidade e até hoje não atento para o que seria. Diziam que era, tifo, febre tifoide, maligna, e outras febres. O certo é que naquelas distâncias, nas barrancas do rio, sem médico e assistência de saúde, ninguém ficou sabendo que mal era aquele. Sabiam apenas que matava pessoas e cada vez mais precisavam de novas covas. O serrote traçador teve que fatiar muitas tábuas de cedro, arrastando dia e noite seu pesado sofrimento. A doença deixou muitas lembranças, quase todas más. Cada um tinha perdido um filho, mãe ou irmão. Não era fácil esquecer porque havia o luto costumeiro e, não raro, nos cemitérios improvisados, à beira das estradas, pedaços de mortalhas se espalhavam, arrancados das tumbas por tatus heréticos. Escapei. A praga me esqueceu. Daqueles dias, em névoa, recordo ainda o lufa-lufa da mãe, o ruflo de seu vestido entrando e saindo do quarto, as reprimendas impositivas e sua mão me levantando encaminhando para o mundo, por onde ainda hoje caminho. E às vezes, quando fraquejo e resvalo sobre as carnes e os próprios ossos, no escuro, ainda é a sua mão que, exausto, espero e procuro.


(De Diário Tardio)
Maio, Goiânia, ano COVIDE de 2020




ELEGIA EM NOME DE DURVAL NUNES



ELEGIA EM NOME DE DURVAL NUNES
                                            Aidenor Aires*


Bateu à minha porta
o rumor de tua ausência improvisada.
Ainda há pouco, conversávamos sobre os apriscos,
o balir das cabras no apojo dos borregos.
Celebravas o zumbido doce das colmeias
dessedentando-se nas flores da caatinga,
nas águas do riacho.

Não concluímos aquela conversa sobre cantiga da terra,
o gemer das florestas, o lacrimejar dos ramos,
o tênue orvalho nos racimos que a pesarosa
mão do homem dilacera.

Ainda há pouco, me confidenciavas o mugido da rês
lambando os barreiros das encostas.
Que louvação e sofrimento gemiam nos aboios,
nas ladainhas de crença, fé e sonho!
Neles se compraziam os perdidos do sal e da ternura.
A bênção que proclama mãe Calima, e todas as mães
de filhos partidos na infância, que jamais retornarão.

Olhávamos o “Rio Preto, de Águas Cristalinas”,
e desenhávamos no espelho rútilo
 utopias de canto e poesia.
Olhávamos a Barra do Rio Grande escalando rochas, peraus
e correntezas
para chegar, arfando nos vapores, ao pétreo leito das barreiras,
sem a dormências das rasuras assoreadas.
Depois o rio se desmanchava em braços, em nervos, em veias
sondando os vales, a doce babugem no cio
 dos gerais.

Ainda buscávamos palavras para falar de exilados pés-duros
remoendo na secura as flores roxas da jitirana.
Ainda conversávamos, à mesa, como irmãos reencontrados,
sobre os poemas que fizemos.
Outros que cantaremos.
E aqueles que os poetas do futuro escreverão.

Falávamos da gente, da pele morena e dos rostos rosados
das caboclas púberes.
Eram tantos os seres, as gentes, as histórias,
salvos da vertigem do perecimento.
 E com voz rouca do rocio tardo,
sustentávamos o canto,
já alumbrando nossos olhos a luz da madrugada.

Sem aviso, enfim, foi se calando a tua voz.
Mas, no meu silêncio não falei sozinho.
Mesmo com meus braços alongados
par o chão das despedidas,
continuei ouvindo a tua voz.
 Era voz que ensinava o linguajar da passarada,
as cantigas de todo bicho que se move ainda
 entre arados e erosões.
 de seresteiros, de poetas e meninos.
 Eram vozes que o silêncio da morte não calava.

Apenas pedi ao vento cerrar a litania.
Interromper o despetalar das solares tabebuias.
Pedi às águas pausar a marcha dos cardumes e
o alarido das corredeiras.
Pedi aos seres da terra, das águas e do ar
para escutar comigo as vozes órfãs que perderam seu cantor.

E como ele retomasse a palavra e cantasse,
eu me calei.
Calou o rio. Calou o vento na floresta prosternada.
 E o poeta empolgou a voz:  Continuem o canto!
Que quem canta na dor e no sorriso, tantas vozes,
ainda que doendo, não cantará sozinho.



*Aidenor Aires é membro da Academia Barreirense de Letras,
da Academia Goiana de Letras e presidente da Academia Goianiense de Letras.









domingo, 27 de janeiro de 2019

CANÇÃO DA CHUVA CONSTANTE.


  

Chuva de ontens e imemoriais infâncias,
de auroras ruivas e  mundos  pubescentes.
Varando raízes de expectação, frementes,
sem portos, amuradas ou distâncias.
Toda a noite e o dia, incansavelmente,
drenou dos céus à exasperada secura,
mananciais contidos de mel e de fartura,
derramando-se em gozo  fecundo de semente.
Vem a chuva! Serenamente deu ao campo
As esperanças dos bichos, as revoadas...
E foi tanto o milagre de sonhar, e santo,
que as espigas novas reclinam decepadas.
E leve, levíssima, a maternal chuvinha,
acariciou, como sabe amaciar a pluma,
a áspera terra, a malicia, a urze mais daninha
coberta de orvalho, adocicada névoa e bruma.
Caiu em homilia branda, chuva e glória
Intimando os seres vacilantes às retomadas
do marchar da vida em sinuosas caravanas.
Arrebanhando brotos e espigas dispersadas
nas terras largas, ermos cerros e nas savanas.
Chuva que se encorpa na serra sem nome,
Sem dono, sem nenhuma reserva de mercado.
A propicia chuva, notívaga  e insone
sabe a preclaro mel e leite derramado.
Sem prever avenças, sem tenças ou tributos,
quer ser a chuva do dia, da estação , da flor
Rasgada de seus ínvios seios e ocultos.
Na parição da terra, tão ferida. Suma dor!
Choverá muito sobre o crente e o ímpio,
Como se fosse de Deus desértico maná
Molhará as barbas do potentado olímpio
E dos mais tristes e mais fracos molhará.
Não leva, à mingua de ser sempre generosa,
A culpa de negar-se o pão ao irmão,
Nem de sede secar-se carne e  a rosa rosa
Dando ao garrote, o digno de perdão.

                                               Terras  Utopia  , 13/11/2016

A CARA DO NATAL




                                                    Aidenor Aires

Nestes dias, procuro fechar os ouvidos e os olhos aos risos e brilhos natalinos. Com o tempo, fui abandonando as crenças e a mitologia. Para mim, os deuses há muito se acabaram. Restam lembranças e alguns atavismos em cultos interesseiros e vazios. Para mim, só o que pensa sente, sofre e morre tem influência na vida e no mundo. Fui aprendendo que não há nada na terra que tenha sido construído por alguma inteligência ou determinação exterior ao mundo. Lição do poeta Lucrécio e de pensadores modernos que trilham os caminhos do humanismo. Natal, dizia Carmo Bernardes, é festa de cidade.  Realmente, concluo, que nos meus tempos de menino beradeiro dos barrancos do Rio Branco, oeste da Bahia, pouco me lembro desta festa, hoje tão mirabolante. Havia, é certo, lapinhas, talvez novena, ou outros ritos sertanejos, cópias do relambório esotérico do “latinorum” romano. Para o povo da roça, era época do milho verde, das pamonhas, do feijão de corda, dos frangos gordos e belos leitões. Mais do que devoção, salvo para as pessoas religiosas, era tempo de fartura. Lembrava mais as festas pagãs do solstício de verão, que a mídia e A dialética papal não conseguiram exterminar. Esse paganismo foi substituído por novas crenças, da globalização, das mídias ruidosas e das divindades mercadológicas. Vai cessando a invocação da manjedoura construída no imaginário cristão com seus animaizinhos, um berço de palha, reis e seres improváveis. Nos festejos da roça meninos não participavam. Não havia presentes. Quando muito, brinquedos feitos à mão. Lembro-me de bodoques, carrinhos de madeira, piões, fincas, berra bois, bola de leite de mangaba, recheada com ar de bexiga de porco. Nada de roupa nova, calçados e outros aguinaldos, hoje derramados sobre os desejos da meninada e exibicionismo dos pais. “O Zezé quis um tablet” Rosinha um celular, Maria uma boneca com pipiu ou perereca. É bom para as novas políticas de gênero. Já estão quase na idade de se decidirem pela opção sexual a ser gravada no registro de nascimento, que ainda está com um espaço “indefinido”.  A infância daqueles meninos não passava atoa. Poucos tinham acesso à escola e passavam os dias em trabalhos de ajuda aos pais. Dormiam em catres, um ao lado do outro. Não tinham privada patente, comiam o que a terra dava. Nunca recebiam salários e tinham pouco tempo para as atividades lúdica, depois que cumprissem as obrigações familiares. Talvez varrer o quintal, dar água ás criações da casa, capinar um eito de arroz. Depois de um prato de feijão pagão, um pedaço de rapadura que insuflava nas carnes e nos ossinhos tenros toda a sustança da vida. Verdadeiro trabalho escravo. Não era censurável porque assim viveram seus pais e nunca padeceram fome, nem falta de liberdade, nem miséria moral. Apreciam, isto sim, lições de amor à terra, à vida e a solidariedade. Natal, para mim, pouco importa. Dele recolho apenas algum sorriso, um abraço, um beijo da pobre gente esquecida, por um momento, de suas angústias, purgando-as no vinho, na cerveja, nos leitões, perus e rabanadas opíparas. Não precisam olhar lá fora. Afinal, aqui há tanta beleza, tanta música. Desfrutam com quem não tem futuro, porque imaginar, sonhar, ter fé não é construir. Falta nesses obreiros sentimentos humanos. Operam por consentimentos dos deuses que não estão na terra. Estão distantes e altos ignorando as alegrias ou misérias da terra. O Natal, para esta gente é um carnaval de máscaras místicas, caras piedosas e pio gestual. Recordam seus mortos e os guardam em algum paraíso, onde estão congelados, não padecem fome nem tristeza. Para mim, no correr da vida, fui descrendo desse imaginário, mitos fantasias. Respeito e honro quem assim crê. Afinal, tudo cabe dentro do homem, inclusive a crença em milagres. Retorno àquele tempo luminoso da infância sem censuras, aos passarinhos, às farturas da estação, à minha gente que nasceu, sentiu e sofreu, quase distante do comércio da fé e da tirania dos deuses.



Sítio Pachamama, Solstício de Verão de 2017

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

ESPERANDO


Disse assim, o poeta, arrastando urzes:
Quando se passar a fome, o frio,
e os ásperos estios, descansarei as cruzes
e darei ao amor seu tempo e  passadio.

Corridos dias, distâncias, cicatrizes
Disse o poeta: Espero a chuva, a revoada,
a esplendência solar, a primavera
para ceder ao amor sua morada.

Passaram- se os dias, na débil fala,
diz o poeta ao amor, já ressequido,
em franca voz contenciosa e certa:
pode chegar, Amor, à porta aberta.

E quem restou sempre em calada
Espera de chamamento e acolhida,
Não deseja, não canta, entristece
Sofrendo anseia uma outra vida.


segunda-feira, 30 de abril de 2018





ADEUS A JOSÉ MENDONÇA TELES
                                                                 *


Viver mais um dia. Ver os dias emagrecendo, encurtando, exaurindo. Não perdem o brilho os dias despertados pela aurora, esplendentes ao sol do meio céu, nem no escuro sanguíneo dos ocasos do planalto. Os dias vão se ofuscando nos olhas derramados para a sequiosa pátria do retorno. Vão escorregando nas mãos que adeusam resvalando, fugindo implacáveis entre nossos dedos. Os dias fatigados morrem nos meninos mortos, nas flores murchas, nos amores destroçados, no ruir dos gestos, dos sorrisos e do pulsar dos amigos. Há os que partem sem haveres ou bagagens. Há, porém, os que vão carregados de leveza e pluma. Não levam cofres, rebanhos. Mais uma vez estou aqui, não cansado, mas só e entristecido o ocupando o púlpito da despedida. Partindo em suas vestes cândidas o amigo, poeta e homem fraterno, Jose Mendonça Teles, filho da doçura musical e estóica de D.Celuta; irmão de muitos irmãos, amigos de muitos amigos. A vida não desembarcou de uma vez em sua estação definitiva. Impôs-lhe a via dolorosa, o caminho acúleo de sarças e pedras. Apontou os carrascais de dor sem caminho, sem palavras, sem sorrisos. Duras penas.  Coroá-lo com o louro sangrento dos poetas. Cantou, abraçou, sorriu na ágape solidária, desmerecendo a amarga ambrosia dos momentos súplices. Mas os olhos postos na indefinição das visões anunciam que é chegada a final libertação dos ossos, da carne para galgar degraus ajardinados de transcendência. Agora, meu amigo José Mendonça escapa, num gesto maroto, bem do seu feitio, do mapa perecível.Com sua bagagem diáfana de poemas, livros, alfarrábios e jornais vai zombando da dor exilada, espalha luzes que seguirão passos futuros jamais interrompidos pela “indesejada das gentes”. Mais ainda, que as palavras aladas, carrega em estelas escorrendo de suas mãos aqueles afetos, aquele dar-se em coragem, ensinamentos e apoio. Escreveria um livro em testemunho do que o vi passar. Passar comigo, com seus parentes e afins, com seus amigos. Talvez um dia enumere aqueles momentos que, não houvesse uma obra literária haveria uma inelutável obra humana. Muitos leitores sabem do que estou falando. Quando me passe a dor deste transe e venha palavra capaz em minha boca falarei disso em honra ao filho de D. Celuta, pai da artista Alessandra, da professora Giovana, esposo de D. Ana e pai de muitos filhos herdados dos leitos solertes da vida. Agora, porém, sem que não será esquecido. Está dissolvido nas ruas da Campininha, nas águas do Araguaia, na canção da chuva, nas ruas da Cidade do “Ó/Cio, em cada fachada art- decò, em cada sítio de memória de Goiânia. Não há que se falar em morte ou desaparecimento do Zé Mendonça. Sua Alma será sempre Matutina. Irá amanhecendo com o tempo que, antes de escondê-lo, revela-o no mapa intangível. Viverá propicio, alegre e trêfego o Zé Mendonça quando nos reunirmos para celebrar a vida e a alegria, quando erguermos uma taça de vinho, quando formos a Pirenópolis e aplaudirmos as pastorinhas. Estará vivo para além de nossas lembranças. Estará ao lado de Joaquim Thomaz Jayme batucando o rítimo evocativo do Hino de Goiás. Estará nas solenidades, nas festas cívicas e nas bocas dos meninos do futuro. Estou mais rico hoje, de uma riqueza insubtraível. Tenho um amigo eterno. Um amigo cuja voz jamais será silêncio e antecede na vertigem prenúncio de nossa jornada. Ao Zé de todos nós, estendemos as mãos, um abraço, como quem toca e abraça a poesia, como quem abraça e toca a glória de toda herança que nos lega nossa frágil e gloriosa existência.  Como diriam meus amigos espano-falantes: Amigo Zé, nós que estamos chegando, o saudamos: “H A S T A  S I E M P R E !”


*Aidenor Aires – escritor, da Academia Goianla de Letras, presidente da Academia Goianiense de Letras.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Por onde ia... (Quaresmeiras)

DE MINHA ANATOLOLGIA PESSOAL
Por onde ia acariciava no olhar...
              (Quaresmeiras)



Por onde ia acariciava no olhar
de ventura tão breve
as quaresmeiras acentuando em roxo
o esvair do dia.

Não falavam elas da tristeza
que a alma roía pelas ramas,
nem do desamparo
que o acolchoado musgo
segreda pelas pedras.


Naquelas flores roxas
não pousava a tristeza da vida,
nem a desolação do amor,
nem a humana flor caída.
Abriam apenas o gineceu
propício à fecundação solar.
Apenas levantavam no cálice
a cor que a estação desenha
sobre a luz de exaltação e nácar.


Não servem suas flores roxas
ao anúncio as sextas-feiras tredas.
Não serve seu aleteado esgar,
como feridas, nas salvas do vento.
Não servem ao pão amargo do poeta
sua escassa fome, seu negado alimento.


Balançam, sem pejo, no álacre estrépito
que o dia move perecendo.
E não se dão conta, essas flores roxas,
de nenhum sentir que a humana
e s exasperada angústia exala.
Não conciliam sobre o perdido amor
nem sobre a falta pungente
                    que, ao fluxo, oclui e cala.


Seguem no vento o com seu bailado
de indiferente formosura e viço.
Apenas pulsam na gratidão solar do dia.
Apenas comungam na glória da estação,
sem pressa, sem temor, sem tempo,
negando a ânsia de intenção,
que em tudo, humana dor
                                          e humanos olhos viam.




sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018





PROFESSOR JOSÉ FERNANDES, UM BRINDE À VIDA
                                                                    Aidenor Aires*

Ferido com a morte de mais um amigo, vejo um vazio que se abre entre aqueles que fizeram das letras seu mote existencial. A falta que traz a partida de José Fernandes é uma ausência múltipla. Não desaparece apenas o homem. Vai o professor, o poeta, o crítico literário. Gostaria que sua substância, sua humanidade, demorada no arcabouço da matéria, fosse recebida pelas mentes que demoram na memória dos homens. Ah, pudesse ele encontrar Virgílio, Sócrates, Epicuro, Horácio, Dante, Petrarca, Camões, Drummond, M. Bandeira, Yêda Schmaltz, José Décio, Carmo Bernardes, Bernardo Élis e muita gente mais, que o distraísse das misérias deste mundo de homens sem rostos e sem tripas. Sei que o país para onde vai é puro mistério. Sei que, como homem de fé e cristão, sonhava com essas paragens celestiais e de contemplação perene, como prêmio de sua caminhada terrena cheia de esforço, virtudes, estudos e valores.  Talvez esteja no lugar onde vigem o amor e as altas estrelas, ou o seleto cenáculo dos que são convidados à ágape dos deuses, descansando das atribulações deste mundo. Tão pouco para tão grandes sofrimentos. Em razão de, com o tempo ir perdendo a fé, com o pouco que me resta, deixo de fazer prognósticos sobre a futura vida de eternidades. Nesses mundos de tantas promessas e vária utopia deve haver vidas que nossas vidas, por precárias, não compreendem. Para mim o além é território de cegante de luz e mistério, que alumbra e confunde a mente. Fico apenas no umbral imaginando felicidades. Me anima um leve e possível sonho de compreensão. Fico pequeno ante o portento dos deuses que, não existindo, manejam as vidas e os destinos dos homens. Como não sei a linguagem dos anjos nem o célico dialeto, paro frente ao seu livro heráldico e indecifrável. Atemorizado. Não ouso sondar essas estâncias de interrogação e sonho. Nesse mapa, do Professor José Fernandes, não sondo as romagens da morte, nem seus caminhos, nem seu possível canto, nem seu humano afeto, nem sua santa pedagogia. Falo apenas nesta homenagem, tão pobre e sem lustro, do ser humano, do mestre e escritor que conheci. Falo, amigos meus, de sua vida de dias e anos por aqui. Falo do ser humano, do amigo, do intelectual, do homem de família de sonho e fé que conheci. Compartilhamos pão, poesia e algumas taças de vinho. De sua vida sei que arrostou duros trabalhos para se formar. Que se transformou num mestre paciente e culto, generoso em repartir os conhecimentos através dos dias, nem sempre donairosos e gentis para com ele. Sei de sua cordialidade, sempre disposto a atender alunos, consulentes e amigos. Tinha sempre uma palavra de estímulo na leitura de textos, na redação de artigos críticos, prefácios e ensaios, reservando sempre disponibilidade para a construção de poemas profundos em sofisticado e criativo manejo da língua portuguesa. Conhecedor do latim e do grego, ainda há pouco me socorreu numa consulta sobre a língua de Cícero. Isso faz notícia de sua vasta obra de escritor, pesquisador e crítico, parte dela guardada nos vários livros que publicou. Boas lembranças me confortam de nosso conhecimento. O convívio dos filhos, o encanto dos netos, o carinho dedicado à esposa, tão em sacrifício de saúde nos últimos dias. Olhando daqui, do momento em que fecham se as cortinas da vida, olho como olharia Emanuel Mounier, ou Gabriel Marcel, existencialistas cristãos. A morte é que dá sentido à vida. Fecham se as cortinas, encerra-se o espetáculo com seus atores e enredos. A plateia se calará ou se levantará em gritos, assobios, vivas e “bravos!” À gloriosa encenação de José Fernandes, em todos os atos de seu épico drama, nós nos levantamos e aplaudimos, pedindo que retorne à cena ainda várias vezes. Enfim, proclamamos nosso júbilo com estridentes e agradecidos gritos, com vibrantes e sonoros “vivas!”. As cortinas se fecham brevemente para reabrirem-se em palco coroado de louros e de flores. Este foi o amigo que conheci. É dele que falo. E mesmo querendo não morrerá. Viverá gentil e sábio em sua obra, na memória de sua família e de seus amigos. É sobre ele que testemunho. Aceno, nesta hora, apenas o lenço de “Até Breve!”


*Aidenor Aires é escritor, presidente da Academia de Letras de Goiânia.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Poeta Gabriel Nascente, a poesia na rua






Poeta Gabriel Nascente, a poesia na rua. *

Não me deu procuração. Nem se mostrou amargo ou infeliz. O poeta Gabriel Nascente, no dia do seu aniversário de onírico aquariano, me confidenciou que fora enxotado do pequeno cargo comissionado que ocupava no Tribunal de Justiça de Goiás. Aposentado no município com um salário irrisório, orgulhava-se do novo posto que direções anteriores do Tribunal lhe haviam dedicado. Tenho conhecimento de que aquela comissão não o fizera rico, nem ultrapassava os limites de rendimentos consentidos no poder judiciário nem nos escalões luminosos da República. Coisa menor, mas importante para o poeta. Não só pelo aporte financeiro, mas pelas funções que exercia com amor e disposição generosa. Organizava exposições de artes, trazia acadêmicos da ABL para palestras e encontros com intelectuais goianos. Aos poucos ia construindo uma pinacoteca naquele órgão judicial, acostumado ao juridiquês, ou demandas, discussões sobre crimes e quizilas familiares. Pouco poéticas, já que o vate, por sua formação aérea não sabia decidir os feitos, mas apenas chorar o destino sofrido da humanidade, o encanto das musas. Daí o poeta ser dispensável. Mesmo ministrando ao Tribunal uma face de beleza e humanidade. Também em todo lugar onde se precisa cortar, descer o pau, havendo poeta, é sua cabeça de astros que deve receber a borduna. Mesmo sem lamentar a perda ou me pedir, não posso deixar de ser solidário. Temos uma irmandade, não só da poesia, mas de uma encruzilhada de nossas vidas. Por volta de 1958 nos encontramos. Gabriel, recentemente órfão, na prole de Dona Antônia com seus sete filhos; eu, também órfão sob as asas de minha mãe, com récua de seis, sozinha de abandono. Nunca mais nos separamos. Rimos, quando o riso foi possível; choramos quando naufragados pelas lágrimas. O destino comum de condenado ao jugo das ideias e das palavras. Sem nada poder para mudar a ordem que se impôs ao mundo, resta-me abraçar o poeta, digno e sereno frente à adversidade. Afinal, o que pode almejar o poeta, se já tem a coroa do poema, a glória do impertencimento, a honra de amar o pobre homem em sua solidão? Cabe o estandarte do sofrimento, a glória da descrença e coragem de ser triste. É claro que fazem falta as coisas do mundo, mas muito mais falta faz as vestes da alma sobre os ossos. Essas vestes inconsúteis não ficaram No Tribunal. Vestem sua diminuta e álacre figura pelas ruas de Goiânia.


*Aidenor Aires, escritor, presidente da Academia de Letras de Goiânia

domingo, 24 de dezembro de 2017

A CARA DO NATAL

                                                    Aidenor Aires

Nestes dias, procuro fechar os ouvidos e os olhos aos risos e brilhos natalinos. Com o tempo, fui abandonando as crenças e a mitologia. Para mim, os deuses há muito se acabaram. Restam lembranças e alguns atavismos em cultos interesseiros e vazios. Para mim, só o que pensa sente, sofre e morre tem influência na vida e no mundo. Fui aprendendo que não há nada na terra que tenha sido construído por alguma inteligência ou determinação exterior ao mundo. Lição do poeta Lucrécio e de pensadores modernos que trilham os caminhos do humanismo. Natal, dizia Carmo Bernardes, é festa de cidade.  Realmente, concluo, que nos meus tempos de menino beradeiro dos barrancos do Rio Branco, oeste da Bahia, pouco me lembro desta festa, hoje tão mirabolante. Havia, é certo, lapinhas, talvez novena, ou outros ritos sertanejos, cópias do relambório esotérico do “latinorum” romano. Para o povo da roça, era época do milho verde, das pamonhas, do feijão de corda, dos frangos gordos e belos leitões. Mais do que devoção, salvo para as pessoas religiosas, era tempo de fartura. Lembrava mais as festas pagãs do solstício de verão, que a mídia e A dialética papal não conseguiram exterminar. Esse paganismo foi substituído por novas crenças, da globalização, das mídias ruidosas e das divindades mercadológicas. Vai cessando a invocação da manjedoura construída no imaginário cristão com seus animaizinhos, um berço de palha, reis e seres improváveis. Nos festejos da roça meninos não participavam. Não havia presentes. Quando muito, brinquedos feitos à mão. Lembro-me de bodoques, carrinhos de madeira, piões, fincas, berra bois, bola de leite de mangaba, recheada com ar de bexiga de porco. Nada de roupa nova, calçados e outros aguinaldos, hoje derramados sobre os desejos da meninada e exibicionismo dos pais. “O Zezé quis um tablet” Rosinha um celular, Maria uma boneca com pipiu ou perereca. É bom para as novas políticas de gênero. Já estão quase na idade de se decidirem pela opção sexual a ser gravada no registro de nascimento, que ainda está com um espaço “indefinido”.  A infância daqueles meninos não passava atoa. Poucos tinham acesso à escola e passavam os dias em trabalhos de ajuda aos pais. Dormiam em catres, um ao lado do outro. Não tinham privada patente, comiam o que a terra dava. Nunca recebiam salários e tinham pouco tempo para as atividades lúdica, depois que cumprissem as obrigações familiares. Talvez varrer o quintal, dar água ás criações da casa, capinar um eito de arroz. Depois de um prato de feijão pagão, um pedaço de rapadura que insuflava nas carnes e nos ossinhos tenros toda a sustança da vida. Verdadeiro trabalho escravo. Não era censurável porque assim viveram seus pais e nunca padeceram fome, nem falta de liberdade, nem miséria moral. Apreciam, isto sim, lições de amor à terra, à vida e a solidariedade. Natal, para mim, pouco importa. Dele recolho apenas algum sorriso, um abraço, um beijo da pobre gente esquecida, por um momento, de suas angústias, purgando-as no vinho, na cerveja, nos leitões, perus e rabanadas opíparas. Não precisam olhar lá fora. Afinal, aqui há tanta beleza, tanta música. Desfrutam com quem não tem futuro, porque imaginar, sonhar, ter fé não é construir. Falta nesses obreiros sentimentos humanos. Operam por consentimentos dos deuses que não estão na terra. Estão distantes e altos ignorando as alegrias ou misérias da terra. O Natal, para esta gente é um carnaval de máscaras místicas, caras piedosas e pio gestual. Recordam seus mortos e os guardam em algum paraíso, onde estão congelados, não padecem fome nem tristeza. Para mim, no correr da vida, fui descrendo desse imaginário, mitos fantasias. Respeito e honro quem assim crê. Afinal, tudo cabe dentro do homem, inclusive a crença em milagres. Retorno àquele tempo luminoso da infância sem censuras, aos passarinhos, às farturas da estação, à minha gente que nasceu, sentiu e sofreu, quase distante do comércio da fé e da tirania dos deuses.




Sítio Pachamama, Solstício de Verão de 2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

COMPANHIA






COMPANHEIRA
                            Aidenor Aires

A morte nunca me foi estranha. Sempre companheira, desde os dias da infância. Colheu meninos ainda verdes dos pomares nos dias pueris, ameaçou-me com engodos e doçuras, e foi protelando, ao longo dos dias sua fome por mim. Talvez sobejasse meu corpo magro, minha insípida carcaça alimentada a beiju de mandioca e leite de cabra. Foi me deixando passar como sombra imperceptível. Cuidou de outros mais importantes, com mais sustança e haveres. Deixando-me de lado, foi, seletiva, carregando gente de melhor ossatura, musculação e massa cerebral. Assim me poupou a dor suprema, aleijão da espécie humana. E foi me entregando, aos poucos, seu cálice amargo. Levou o pai, a mãe, as irmãzinhas lactentes, parentes, aderentes e muitos da fraternidade dos amigos. Até gente distante, feridos de desastres e tragédias, foram arrastados, doendo em secura a cacimba dos meus olhos, os mananciais de minha alma pobre. Insidiosamente, quase impalpável, a velha senhora de trágica elegância e ferino trato, foi erodindo com sua presença o vazio do meu corpo e a sombra bruxuleante nele embarcada. Sempre procurou se disfarçar com passos sorrateiros ou surpreender com golpes imprevistos. Todas as subtrações não viraram perdas. Saíram do mapa visível e passaram a habitar meus recessos ocultos de lembranças. Daí emergem nas horas auroreais, nos crepúsculos plúmbeos, nas noites feéricas para exultarem em suas vidas de sonhos e lembranças. Como aqueles habitantes do Hades, padecem de corpo e substância, e só podem existir no afeto e na memória, e só podem falar nos lábios dos vivos que carregam suas histórias. Hoje estou, mais uma vez, sob o lancinante golpe da Velha Senhora.  Desta vez, ela percorreu os planos do sul do Brasil, galgou a Cordilheira dos Andes, esfriou sua adaga nas alturas geladas e foi pousar na terra generosa de Melipilla, doce e sísmico Chile. Sem consideração pela ternura e pela beleza, arrastou meu amigo, poeta Jaime Romanini Gainza. Ainda pouco estivemos juntos, aí na Terra dos Quatro Espíritos, rincão das frutas, das vides, dos vinhos e dos sempre louvados lácteos. Desde Goiânia, onde veio com uma delegação de sua terra para um encontro cultural, até sua província, nos encontramos várias vezes. Foi presidente do ATENEO Francisco Gonzales, instituição longeva com importante atividade cultural. Em todos os eventos a que comparecemos em Melipilla, me admirava sempre sua atividade, entusiasmo, contrastando com um comportamento calmo, amistoso e acolhedor. Falava em tom sussurrante, baixo, como costumam falar os chilenos. A última vez que nos encontramos, quando já me preparava para sair rumo ao aeroporto, sou alertado pela recepcionista do hotel. Lá estava Romanini, com uma esplêndida garrafa de pisco que me entregou como homenagem e lembrança. Ela ainda está aqui. Quando resolver toma-la, sem dúvida, estarei invocando a presença amiga e generosa do poeta. Descendente de italianos, trazia de seus antepassados muitas influências e de vez em quando escapava para a terra de Dante, em reencontro com suas raízes europeias. Empresário e líder cultural, era sobretudo poeta. Publicou vários livros, entre eles: Imaginária, Babel e Desdibujado, além de outros títulos e contribuições em jornais e revistas. Competente no uso da palavra, sua temática ia das preocupações teológicas, como em Babel; e à estuância do amor, liricamente extasiado entre a afeição e a morte. Esta foi mais uma vez e em que Ela vai podando meus brotos e ramos, vai ferindo meus galhos, talvez para que me recorde que ela está por aí vigilante e à espreita. Se de um lado e apequena, de outro infla meus alforjes de memória, onde passa a morar agora também Jaime Romanini Gainza.  Para lembra-lo, transcrevo alguns versos seus, onde parece visionário na percepção antecipada da morte.



COMPAÑIA


Muerte que que vienes a quedarte.
Muerte que vienes com gélido abrazo,
Muerte de mirada oscura.
eterna compañera.
Cambia tu ceño adusto
por uma suave sonrisa.
Baña com ternura
lo que alcance tu mirada.
Muerte que vienes a quedarte,
haz mas fácil tu llegada,
No olvides que nuestra companhia
dura tu vida entera.

HÁ LLEGADO

Mis huesos pesados,
mis músculos rígidos,
mi corazón no late.
La espera há terminado...
Aún siento los pájaros,
El viento y el sol,
Pero mi vista ya no ve,
Mi corazón no late.
Sin embargo... estoy tranquilo,
El fin de mi largo caminho... há llegado.


domingo, 1 de outubro de 2017



DESENCONTRO


Eu me sentei
apenas ao teu lado,
como quem fosse contar
a jornada que faz o rio.

Os seres precários
deslizaram nas palavras,
velhas folhas
ao desvario.

Também sem eco
o rumor sofria
sua parcela de esquecimento.

Lado a lado
apenas
para comungar a distância,
a mágoa medular do casario
devorada na torrente.




DISTÂNCIA


O amor já tem
sua janela vazia.

Por ali mira
sua perda
na vertigem
das estações decíduas.

À mesa, meu alimento
de distância.

E vai crescendo
nos arrozais do abandono
uma criança que brinca nesta ausência.




FLORES DO CERRADO


FLORES DO CERRADO
                           Aidenor Aires


Vida breve. Emoção roubada aos deuses. Padecem da dor imensurável da eternidade, eles. Nós, os que vamos morrer, podemos saudar esses lampejos, esses retalhos da permanência. Felizes de quase nada. Não digo do poeta, faminto de dias e horizontes. Paro e contemplo a natureza generosa que golpeia sem saber o rio do tempo, acendendo reflexos, cascatas, sombras, corpos boiando e retalhados reflexos de céu e sol. Vaga permanência. Na sequidão extensa do planalto, venham ver a sangria luminosa e exasperada da floração. Nem meus olhos, nem meus sentimentos, nem meu possível coração e seus estigmas pode suportar a abundância da beleza derramada na luminosa paleta do cerrado. Chega a ser injustiça, ou divina covardia. Como suportar o ipê roxo, de mística chaga, estender o seu quaresmal pálio sobre a mata decídua? Quer doer para além dos olhos. Pobre e estreito olhar. Quer ficar, passageiro, denso na lembrança. E quando vai espalhando no vento suas últimas pétalas bailarinas, parece provocação, um desafio ao irmão de juba amarela que estraçalha em ouro o ar pesado, o céu plúmbeo, ar do escaldado agosto. São apenas exemplares de luz sobreviventes, escapos aos machados, às motosserras, aos tratores. Gritam suas flores sobre tocos, leirões e arados, na ânsia de logo espalhar sementes que aspirarão iludir a morte e germinar para improváveis florestas do futuro. E mais que acenos agitados pelo vento geral, a intensidade amarela dessa florada, especialmente, são gritos, esgares que mancham o cerrado numa agonia anunciada. Fraquejo. Com toda minha escolaridade de pena e sofrimento coloco-me de joelhos frente a esta divindade singela. Deploro e me ponho a carpir, não os que hoje florescem, mas aqueles que não nascerão e não serão admitidos no dia possível de florescer. Bastaria minha lágrima, meu suspirar de pobre palavra e muita pena, não fosse a sucessão alvinitente das copas nevadas dos ipês brancos. Benzem, angelicais e núbeis, cerros ásperos, cerrados avermelhados, chãos calcinados de concreto e alcatrão. Apenas genuflexo, rente à terá, pode-se olhar, chamar e recolher este esplendor de alvura, inconcebível em terra tão sáfara de homens tão duros e amargos. Somente aí se esgota nossa sede de beleza e encantamento. Seria necessário, para não esquecer, olhar apenas o chão de avermelhado corpo, de desolada pele, de desertificado coração. Mas as árvores que amam a morte, porque sangram, parturientes, para o advento das sementes, e não confiam nas promessas dos verões e das primaveras, expõem suas estratégias vitais. Somente quem acompanhou o clamor dessas árvores cerratenses pode sentir, como um epílogo cantante da sinfonia vegetal, o estuar simultâneo da flor carmim do cega-machado e aquelas desenhadas em cabeleiras de amarelo sépia do feijão cru. Desapercebidas entre outras árvores, insignificantes durante todo o ano na paisagem, num repente, exibem seu estandarte de flores, num ritual que nasce e corre pelas seivas, desde as profundas raízes. Nelas não são galhos, mais subterrâneos nervos e raízes que florescem.  Pondero que essas flores são milagres fugidios. Ambicioso, talvez egoísta, anseio estar aqui ainda no próximo agosto, contradizendo a vocação de morte que escurece o mundo. Virei para celebrar esse milagre estupendo que, descuidados, ímpios deuses deixaram, perdulários, se espalhar em desperdício de luz pelo cerrado.

06/09/2017


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ZUT - UMA AVENTURA DA LINGUAGEM






ZUT – UMA AVENTURA DA LINGUAGEM

                                                                                               Aidenor Aires*



Há muito tempo venho acompanhando a aventura poética de Wilmar Silva ou Djami Sezostre. Para ler a poesia de Sezostre não se pode olhar parado, a partir de um ponto no alto, embaixo ou dentro. Seu (não) verbo instaura uma cena de signos multívocos, onde se amassam, se entranham, sem cercas ou horizontes.
            Nada que aprisiona, tudo que liberta. Em seu trabalho de estranheza singular, uma torrente que captura a totalidade dos sentidos, sem conter em cada um deles sua plenitude comunicativa. Em ZUT o poeta exorciza o discurso, a dicção e segue construindo (destruindo) o que sempre foi belo e consentido.
            Seu campo de exercício é o processo genético da linguagem. Inconformado com as limitações expressivas das palavras com sua carga de sentidos com/sentidos, ousa em desafios à ordem e à semântica. Recria seu próprio, silabário, vocabulário, fremente e instável, aventurando-se num mergulho até os embriões da linguagem.
Ao fragmentar o sacro edifício das palavras, talvez busque o momento primordial do silêncio, dos grunhidos, dos uivos e esgares. Visita a primitiva sintaxe de silêncio, onde dormitavam os signos primais dos gestos, dos gungunados, dos silvados, dos sons emitidos com dor, alegria e espanto, aprisionados em bocas rudes.
            Sob este aspecto seu texto é pura ousadia de formas quebradas e convoca o leitor de percepção plural a juntar fragmentos, amealhar possibilidades múltiplas de significações, participando do artesanato libertário que manipula descobertas verbais, interfaces idiomáticas, oferece sugestivos jogos e cativa os sentidos do leitor em vertiginosa viagem fractal.
            Muitas abordagens se poderiam armar no só edifício armazenado em seu grafismo poético. Ultrapassa a semântica unívoca ou meramente metafórica para inventar espaços, deslizamentos e ambiguidades de oráculo. ZUT não é somente um campo de exercício dramático e lúcido do poeta. É uma dádiva à consciência criativa do leitor/mirador/ouvinte/tátil e saboreante.
            A abordagem do texto que, em dado momento, pode se denominar leitura, não admite passividade. Todos os sentidos, mais a imaginação e a inteligência, são cativos para extrair sentidos, conferir significados, abandonando tudo o que sabia da poesia e da linguagem. Há momentos em que se quer ser criança e jubilar-se com sons inaugurais, gozar as primeiras silabas no prazer de executar o inocente instrumento da fala.
            Não se pode ler ZUT para conhecer um poeta e sua linguagem. Aqui tudo é inaugural, é desafiante e múltiplo. Infinitos poetas rabiscam papiros, tablas e écrans quando Djami Sezostre entrega sua missiva impessoal dirigida a uma geografia ainda por descobrir-se.
            Se o leitor pode atravessar a treda floresta da linguagem escrita, precisará de renovadas ferramentas para divisar o lado vertiginoso de sua performance corporal, onde Sezostre se entrega ao gestual, ao clamor cardíaco, à simiologia eloquente, à voz que entoa extreme as fronteiras entre o canto e a fala, entre o silêncio e o vagido.
            Na leitura sonora dos poemas Sezostre canta orfeônico, gregoriano e mântrico. Seguir sua arquitetura linguística nos aproxima de tantas vocalizações caras, felizes ou doloridas do ser humano. Difícil é comentar um aspecto em separado desse poeta múltiplo. A possibilidade compreensiva de seu trabalho só pode ser defrontada em sua complexa atuação de performer original.
            Seu texto/contexto não invoca apenas a dimensão da linguagem perceptível, nem sua humanidade inclusa, palpitante.  É preciso acolher sua construção imagética, onde o poeta se dá em vocabulário carnal, o corpo e a alma, capaz de pertencer panteisticamente a um universo de árvores feridas, bichos sofridos, terra e água. Areias, galhos e animais se misturam a uma herança de memória do chão, da casa, da família.
            A arte de Sezostre cresce em sua expressão multitudinária. Tudo que digo, nesta breve e simples abordagem, nada diz dele. Talvez todas as tentativas de recepção acabem por ser uma traição. O expectador tem sempre a última palavra, sua liberdade de conhecer e sentir. Estou certo de que ZUT reúne o mais alto acervo de sua invenção. Destaca-se como desenho original na poesia brasileira, ecoando diferente das mais descoladas experiências da linguagem.
 Embora dono de tão ampla linguagem, de tão inusitados recursos, de tão pungente clamor por comunicação e encontro, de uma certa forma é uma voz que clama na multidão e no deserto e, com certeza, segue cantando, indiferente e completo, como fala e canta, aos homens e ao mundo, poesia.

*Aidenor Aires, poeta, de Riachão das Neves, BA. Mora em Goiás, onde vive e escreve.