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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

INCOMUNICÁVEL

 

 

 

NCOMUNICIÁVEL



 

INCOMUNICÁVEL

 

 

Os seres não se tocam

na contramão do dia.

Bólides de medo e distância,

os seres se proíbem

em data e pleito

                           que se adia.

 

Irreconhecidos, permanecem

à porta das lembranças

como se um velho,

ao crepúsculo, recolhesse

a mão de uma criança.

 

Os seres não se tocam

Na palavra geografia,

os corpos não são vias,

não são portos ou caminhos.

São ermos e selvas

                         E desertos.

 

O corpo é uma praia

que outro corpo invoca

com seu aceno de onda

tremendo sobre distância.

 

Os seres não se tocam

na dor de ser presente,

ofertam-se em casca

e negam-se em semente.

 

São margens e consentem

intactos territórios.

Por isso, é tudo abismo

o que a mão prolonga,

é tudo abismo

o que o beijo alcança.

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

ESTIO


 

I – Compáscuo

 

O cerrado exalta sua teimosia humana.

Lá estão os pastos ressequidos,

 gáudio magro para os estivais rebanhos.

Clamam no pastoreio a exaustão das ervas.

Caminham para o vento eriçando os colmos exilados

na estação mais dura.

Malgrado o azul sem augúrio, de céu nublado e chuva,

ainda vou ceifando flores

no compáscuo de luz solar e tardios rebanhos.

Com humana teimosia a terra exalta a nascitura brisa,

flash de suave secura, unhas de sede.

E como quem dá à luz um plenilúnio

as minhas mãos desenham o que transpira,

cujo destino é ser a trilha de bordada sombra,

 o verde suspirar de uma vereda.

 

 

II – Terra

 

Sempre esteve aí, sob a marcha inexorável.

Altas florestas, rios, montes, e mesmo o insatisfeito mar

se escora em sua alma côncava.

Impassível, balouça a rede do mundo

desfilando nos turvos céus o fósforo inalcançável das estrelas.

Aferro-me amoroso à epiderme

de seus vulcões acesos,

no abismo escuro espero animosa flor de erupções.

Sou apenas o pequeno e nascituro desafio da carne.

Meu ajuntado de músculos e ossos

carregam em seu farnel de sonhos

cidades, muralhas e destroços.

Deixei a exaltada arquitetura das multidões.

Ínfima rebeldia, caminho por vales, cerros e desertos.

Vem, acolhe o magro espólio, o desamado comodato:

desta alma débil, extremo canto e dor impura.

No dealbar da estrada havia sendas. Sem cavalgar, voltei.

Abandonado, nas estações candentes,

contido em barro, esperei sozinho.

 

 

III - Revoadas

 

Logo será a manhã das revoadas.

Recolho sangrando de crepúsculo aquelas memoriais jornadas.

Na altura, em sobrevoo, deixam adeuses às várzeas

em celebração de pátria.

Chegar e partir é dor - paroxismo extremo.

Nascer e morrer é nossa conta de fel e de suor.

Viver inclui cansaço e sede de alcançar

a falta que um porto apenas inaugura.

 

Logo será a manhã das revoadas.

Embarcaremos nas velas embebidas de vento e espuma.

Ai, lágrimas escorrendo nas praias!

Ai, desfiado pranto de sal pelos trapiches

desgarrados de todo chão e todo azul.

Em baixo a terra, o berço amado - torrão,

aconchego e infância de lidimas estações.

 

Logo será a manhã das revoadas.

Tudo que resta para trás é desalento.

Para lá aportam os amores verdes, sem outonos.

Por lá padecem as infâncias que não vingam,

corpos curvados, mão vazias e canções

que, magoadas, apenas balbuciam

o pizzicato de todo desencanto.

 

 

 

Pacha-Mama, 25 de julho de 2020

 

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 23 de julho de 2020

ELEGIA EM NOME DE DURVAL NUNES



ELEGIA EM NOME DE DURVAL NUNES
                                            Aidenor Aires*


Bateu à minha porta
o rumor de tua ausência improvisada.
Ainda há pouco, conversávamos sobre os apriscos,
o balir das cabras no apojo dos borregos.
Celebravas o zumbido doce das colmeias
dessedentando-se nas flores da caatinga,
nas águas do riacho.

Não concluímos aquela conversa sobre cantiga da terra,
o gemer das florestas, o lacrimejar dos ramos,
o tênue orvalho nos racimos que a pesarosa
mão do homem dilacera.

Ainda há pouco, me confidenciavas o mugido da rês
lambando os barreiros das encostas.
Que louvação e sofrimento gemiam nos aboios,
nas ladainhas de crença, fé e sonho!
Neles se compraziam os perdidos do sal e da ternura.
A bênção que proclama mãe Calima, e todas as mães
de filhos partidos na infância, que jamais retornarão.

Olhávamos o “Rio Preto, de Águas Cristalinas”,
e desenhávamos no espelho rútilo
 utopias de canto e poesia.
Olhávamos a Barra do Rio Grande escalando rochas, peraus
e correntezas
para chegar, arfando nos vapores, ao pétreo leito das barreiras,
sem a dormências das rasuras assoreadas.
Depois o rio se desmanchava em braços, em nervos, em veias
sondando os vales, a doce babugem no cio
 dos gerais.

Ainda buscávamos palavras para falar de exilados pés-duros
remoendo na secura as flores roxas da jitirana.
Ainda conversávamos, à mesa, como irmãos reencontrados,
sobre os poemas que fizemos.
Outros que cantaremos.
E aqueles que os poetas do futuro escreverão.

Falávamos da gente, da pele morena e dos rostos rosados
das caboclas púberes.
Eram tantos os seres, as gentes, as histórias,
salvos da vertigem do perecimento.
 E com voz rouca do rocio tardo,
sustentávamos o canto,
já alumbrando nossos olhos a luz da madrugada.

Sem aviso, enfim, foi se calando a tua voz.
Mas, no meu silêncio não falei sozinho.
Mesmo com meus braços alongados
par o chão das despedidas,
continuei ouvindo a tua voz.
 Era voz que ensinava o linguajar da passarada,
as cantigas de todo bicho que se move ainda
 entre arados e erosões.
 de seresteiros, de poetas e meninos.
 Eram vozes que o silêncio da morte não calava.

Apenas pedi ao vento cerrar a litania.
Interromper o despetalar das solares tabebuias.
Pedi às águas pausar a marcha dos cardumes e
o alarido das corredeiras.
Pedi aos seres da terra, das águas e do ar
para escutar comigo as vozes órfãs que perderam seu cantor.

E como ele retomasse a palavra e cantasse,
eu me calei.
Calou o rio. Calou o vento na floresta prosternada.
 E o poeta empolgou a voz:  Continuem o canto!
Que quem canta na dor e no sorriso, tantas vozes,
ainda que doendo, não cantará sozinho.



*Aidenor Aires é membro da Academia Barreirense de Letras,
da Academia Goiana de Letras e presidente da Academia Goianiense de Letras.









domingo, 27 de janeiro de 2019

CANÇÃO DA CHUVA CONSTANTE.


  

Chuva de ontens e imemoriais infâncias,
de auroras ruivas e  mundos  pubescentes.
Varando raízes de expectação, frementes,
sem portos, amuradas ou distâncias.
Toda a noite e o dia, incansavelmente,
drenou dos céus à exasperada secura,
mananciais contidos de mel e de fartura,
derramando-se em gozo  fecundo de semente.
Vem a chuva! Serenamente deu ao campo
As esperanças dos bichos, as revoadas...
E foi tanto o milagre de sonhar, e santo,
que as espigas novas reclinam decepadas.
E leve, levíssima, a maternal chuvinha,
acariciou, como sabe amaciar a pluma,
a áspera terra, a malicia, a urze mais daninha
coberta de orvalho, adocicada névoa e bruma.
Caiu em homilia branda, chuva e glória
Intimando os seres vacilantes às retomadas
do marchar da vida em sinuosas caravanas.
Arrebanhando brotos e espigas dispersadas
nas terras largas, ermos cerros e nas savanas.
Chuva que se encorpa na serra sem nome,
Sem dono, sem nenhuma reserva de mercado.
A propicia chuva, notívaga  e insone
sabe a preclaro mel e leite derramado.
Sem prever avenças, sem tenças ou tributos,
quer ser a chuva do dia, da estação , da flor
Rasgada de seus ínvios seios e ocultos.
Na parição da terra, tão ferida. Suma dor!
Choverá muito sobre o crente e o ímpio,
Como se fosse de Deus desértico maná
Molhará as barbas do potentado olímpio
E dos mais tristes e mais fracos molhará.
Não leva, à mingua de ser sempre generosa,
A culpa de negar-se o pão ao irmão,
Nem de sede secar-se carne e  a rosa rosa
Dando ao garrote, o digno de perdão.

                                               Terras  Utopia  , 13/11/2016

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Por onde ia... (Quaresmeiras)

DE MINHA ANATOLOLGIA PESSOAL
Por onde ia acariciava no olhar...
              (Quaresmeiras)



Por onde ia acariciava no olhar
de ventura tão breve
as quaresmeiras acentuando em roxo
o esvair do dia.

Não falavam elas da tristeza
que a alma roía pelas ramas,
nem do desamparo
que o acolchoado musgo
segreda pelas pedras.


Naquelas flores roxas
não pousava a tristeza da vida,
nem a desolação do amor,
nem a humana flor caída.
Abriam apenas o gineceu
propício à fecundação solar.
Apenas levantavam no cálice
a cor que a estação desenha
sobre a luz de exaltação e nácar.


Não servem suas flores roxas
ao anúncio as sextas-feiras tredas.
Não serve seu aleteado esgar,
como feridas, nas salvas do vento.
Não servem ao pão amargo do poeta
sua escassa fome, seu negado alimento.


Balançam, sem pejo, no álacre estrépito
que o dia move perecendo.
E não se dão conta, essas flores roxas,
de nenhum sentir que a humana
e s exasperada angústia exala.
Não conciliam sobre o perdido amor
nem sobre a falta pungente
                    que, ao fluxo, oclui e cala.


Seguem no vento o com seu bailado
de indiferente formosura e viço.
Apenas pulsam na gratidão solar do dia.
Apenas comungam na glória da estação,
sem pressa, sem temor, sem tempo,
negando a ânsia de intenção,
que em tudo, humana dor
                                          e humanos olhos viam.




domingo, 1 de outubro de 2017



DESENCONTRO


Eu me sentei
apenas ao teu lado,
como quem fosse contar
a jornada que faz o rio.

Os seres precários
deslizaram nas palavras,
velhas folhas
ao desvario.

Também sem eco
o rumor sofria
sua parcela de esquecimento.

Lado a lado
apenas
para comungar a distância,
a mágoa medular do casario
devorada na torrente.




DISTÂNCIA


O amor já tem
sua janela vazia.

Por ali mira
sua perda
na vertigem
das estações decíduas.

À mesa, meu alimento
de distância.

E vai crescendo
nos arrozais do abandono
uma criança que brinca nesta ausência.




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017





MPRÓDIGO

Minha mãe,
traga a candeia
de azeite
que me aclare
e alumie
a cama
em que me deite.

Minha mãe,
traga depressa
a luz extinta
da infância,
o pavio atiçado
de luz
sem esquivança,
que nunca se viu

em tão claro dia,

CANÇÃO DE ÁRION






DA MINHA ANTOLOGIA PESSOAL

CANÇÃO DE ÁRION
Se esta é a hora,
certamente outra não haverá
até a consumação dos dias.
Quando haverá um pranto
como este?
Quando meu corpo será repartido
Pelas bocas noturnas?

Enfraquece a carne, não morre a lira.
Deixa-me cantar.

Pousam nos seus olhos piracemas de
ouro,
pássaros em bando o recebem
como uma canção de plumas.
Certamente não haverá outra
Conjunção propicia,
Nem tanta dor junta derramando.

Daixa me cantar.

Deixa-me cantar.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

CHEGUEI COM A CABEÇA PENDIDA/ Aidenor Aires





De minha antologia pessoal


  
Cheguei com a cabeça pendida

Cheguei com a cabeça pendida.
Flor decepada do mundo.
Cintilância do aprendizado para o abismo.
Orfeu irregressado, trouxe ainda sob as axilas cansadas,
o fardo do poema.

Aos deuses, ergo minha libação.
Aos deuses, que me fizeram rouxinol.
Subtraio-me disperso
e devolvo a canção que evola de minha carne,
das aras em cinzas,
e já ninguém comove.

Devolvo a todo o belo
o que, veloz, em mim brilhou
sem pressa
do sonho de cantar e ser completo.


UM POEMA DE ÍTALO CAMPOS


Da série: Poemas não publicados (veis)

   DA VARANDA



Ítalo Campos.
Marataízes, a 40 Km
Se avista d´aqui.



Como procissão, os vagalumes da cidade
Pirilampam num cortejo de festa
À rainha da noite.
Vejo o mar inquieto e sonante
A enviar para a praia as impurezas do dia e
Carregar para si meus sonhos.
O mar é salgado das lágrimas
Das mulheres de Anchieta e Lisboa
Pois o mar não está mais para peixes
E descobertas.
Oh, o mar que separa e une,
Reúne e atravessa.
Antes do mar avisto telhados curvos
Abrigando dor e saudades,
Quem sabe algum amor.
Sobre eles, o pára-raio e as palhas.
As palhas em balanço de guardar.
Sons do universo em voz de vento
Trança palhas em movimento.
Avisto pára-raio estático pronto
Para a tormenta.
Eu,
Eu que a natureza observo, amoroso,
Não tenho retorno, nenhum sinal,
Nenhum conforto em minha solidão
E dor. Existencial!
A noite segue longa gotejando
A breve vida inteira.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

NAZARENO CONFALONI ENTRA NO CÉU





NAZARENO CONFALONI ENTRA NO CÉU
                                                          Aidenor Aires

(Poema escrito em homenagem a Frei Confaloni, na ocasião de sua morte, em 04 de junho de 1977. Hoje, data de seu nascimento, comemora-se também seu centenário.)


Te conheci tarde
como conheci Zé Décio, um dia antes de sua morte.
E te vejo agora,
anjo barroco e rotundo
despojado de asas
 e sério.

Cobriram tua humildade com linho,
com este barrete alvo
e eu venho tocar tuas mãos frias,
agitar o lenço
e ver a última vez
as tuas sandálias.
É certo que, ser impuro, não sei os teus caminhos,
Por isso não trouxe um bornal de paçoca,
Um quarto de rapadura e uma moringa de água.
Não sei se é permitido bagagens
nem farnel
para onde vais, assim, definitivo.

Não sei se passarás a nado
um lago escuro e precises de uma candeia de cera
em tua sombra.
Não sei se te espera um barco, um potro arisco,
ou mesmo um asno bíblico e humilde
de onde continuarás com as sandálias tocando o chão.

Não sei se há música nesse teu caminho,
por isso não trouxe os atabaques de minha gente humilde,
que também foi tua, e que serviste.
Não trouxe o berimbau nem as cuícas
que, por certo, gemerão nessas malocas
uma dor mais antiga.

Cobriram-te com este barrete alvo
e até os pés desceram
as dobras do linho
e ficaste assim, um pouco sério,
neste pesar definitivo.

Não sei se os tempos são os mesmos
e o céu cristão permaneça antigo.
Creio que te darás muito bem com Deus,
que ficará coçando os picumãs eternos
da barba
olhando quadros teus.
Não sei se já criaram aí,
se é para aí que vais com tuas sandálias
e teu pano de linho, um ateliê para os pintores,
não me consta que esses ofícios
fossem bem vistos no céu.

Houve sempre alaúdes
eternamente afinados
para legiões de anjos afeminados.
Nunca soube de operários no céu,
e o que aí chegou, aquele da pedra,
virou leão-de-chácara.
Se os tempos forem os mesmos
e Deus reinar eternamente sobre os pobres mortais,
vais te dar mal
nesses confins de eterna luz
e nuncamais.

Andarás pelos corredores do empíreo
com teus cavaletes e teus quadros, espalhando
pincéis e borrifando o rosto absoluto
com essas manchas da terra.
Como poderão, ao lado do Altíssimo,
as tuas madonas negras
de rosto esférico
e olhar tristíssimo
ficar entre quérulos anjos tagarelas?

Depois os lixeiros do céu implicarão
com teus pincéis, se por aí não encontrares
um Fra Angélico, um Da Vinci
e mesmo, que será melhor,
um Van Gogh, um Picasso,
um Portinari ou Di Cavalcanti muito fogoso
com um batalhão de mulatas,
será dura a vida, se as coisas não mudaram.

Dizem que a censura no céu
é coisa dura. Tentaram reeditá-la na terra
e, por mais que dura fosse,
nunca chegou aos pés da coisa eterna.
Por cero implicarão com teu sorriso,
com teu vinho,
com o modo como pisas
e teu jeito de ficar
e ser sozinho.

Eu venho tocar as tuas mãos frias,
agitar o lenço
e ver a última vez tuas sandálias.
Não sei se para onde vais
ouve-se os ruídos da terra,
E se adianta encher-te de recados
Como se a morte te fizessem estafeta do céu.

Creio que estás fatigado da miséria humana,
das injustiças, das opressões,
e precisas descansar
de tantas e tantas peregrinações.
Por isso não te peço que incomodes
tua nova vida com suas coisas novas:
a casa que arrumar, uns cavaletes novos, os pincéis,
as telas, um lugar onde pintar,
se houver o que pintar, exceto o rosto de Deus,
nesse mundo exemplar.

Não te peço que incomodes a paz celestial
E chegues aí logo criando caso com reclamações
aos pés da Mãe-de-Deus,
que o Incriado fez para si,
temendo a solidão.
Não te peço que insultes o Absoluto com nossas querelas,
Isso é coisa que devemos resolver.
Não te peço que intercedas pelos injustiçados,
que peças luzes para os que governam,
que advogues pela família,
maldizendo o divórcio.
Estou certo de que isso é outro negócio
e cada um tem o governo
e a injustiça que aguenta.

Te conheci tarde
Como conheci Zé Décio, um dia antes de sua morte.
Mas venho tocar tuas mãos frias,
agitar o lenço
e desejar boa viagem.
Que se arrume logo a tua vida
nessas eternas paragens.
e que se abra uma individual no céu,
mal acabada a viagem.


domingo, 1 de janeiro de 2017

NESTAS FESTAS DE FIM DE ANO








NESTAS FESTAS DE FIM DE ANO


Nestas festas de fim de ano

cumprimos solidárias promessas,
sonhos humanos de estima fraterna 
e desinteressado amor.
Invocamos os mitos amorosos de esperados profetas,
crentes nas possíveis manhãs para renascer.
Por momentos, enquanto é farto o pão,
embriagante o vinho,
infinitas as luzes,
vivemos dias sem remorsos.
Não estão à nossa mesa os desterrados do mundo,
os desertados do amor.
Não vêm à ceia abastada
os miseráveis das ruas, os refugiados sem abrigo.
Nossos gritos de exaltação,
nossas salvas e vivas não incluem a mudez 
que cala a injustiça.
Fazemos votos de amor perene
e de perene encontro de corações e almas.
Nada disso nos absolve.
Nada nos conduz
à utopia original que desenhamos
no abandono humilde de uma manjedoura de Belém.
Nada disso nos comove mais.
E de alguma cruz de atroz e luminosa memória 
amanhã, outra vez, conciliados,
NOS ESQUECEREMOS
.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ADVERTÊNCIA AO PEQUENO DEUS NESTE NATAL

Aidenor Aires

Hospedar no sonho humano ânsia de deus
entre névoas de eternas calmarias, anseias.
Incansável de renascer, renovas o périplo
de ser imanifesto navegando em pobreza
a face crua, a carne, o dia,  o manifesto.
Passageiro sem porto, ou mero aceno,
de carnal imaginário trespassando
o dia absurdo da vida que mascamos.
Piedoso aspirante ao berço glabro, ao mugir
das bestas e planger de sinos e estrelas,
me curvo e encareço-te a estelar mirada:
 não venhas renascer em  forma humana,
como sempre aspira a divindade.
Não há berço, não há casa, não há peito
que amoroso abrigue a tua eternidade.
São tristes e tredos trilhas e caminhos,
entre a terra e o céu não há estradas.
Não poderias, mesmo etéreo e santo,
chegar ao vão terrenal humano, desolado.
No trajeto que traz a luz à terra.
Nem mesmo um deus da dor será poupado.
Repartir o amor do ser amortalhado,
peço-te, não venhas, não sonhes
ver no homem algum lampejo,vida renovada.
É tudo sombra, é tudo morte, é tudo horror
- é tudo escombros e almas calcinadas.
Se teimas, no empíreo, armar as malas
em busca de outros Judas e outras cruzes,
te advirto, cordeiro santo!  Já não há sequer
à tua chegada, uma porta que se abra
um sino que ressoe ou pueril encanto.
Talvez nem chegues à terra em nave maternal.
Anticoncepcionais e exilados tálamos
impedirão o mesmo impulso de fazer-te
 coagulo possível de ser carne.
E se passares a barreira germinal,
não lograrás, quiçá a glória do advento.
Talvez te arremessem, em vagidos, aos dejetos
humanos, aos escuros guetos, destroçado.
Mas se ousares escapar às frias hospedagens
que se armam entre desamor e crimes,
há outros tropeços, valas e abismos
a colher cerce a infantil eternidade que ofereces.
Não desças ali, na pátria oriental
onde ensinaste a paz e acolheste
a sanguinolenta glória do martírio.
Mais que Herodes, os drones, os mísseis, as bombas
do fracasso total da humanidade, certamente
o esmagarão - infância mortiça de Aleppo e de Altamira.
Nem queiras caminhar por sobre as ondas
nos barcos que demandam os campos euros.
Naufrágios perscrutam tais caminhos
fendendo abismos de oceanos  congelados,
braços, peitos e corações humanos.
Habitarás, em pouco, o negro abismo
ou rolarás nas praias, desamparado, frágil
destroço, ou traste, da humana impiedade.
Também não venhas aspirar a mares do sul
ou verdejantes terras equatoriais;
aqui bordeja os campos estendais da fome.
Não que falte a terra, o sol, a chuva, o repetir
florido das sementes e as segas das estações.
A falta, engendram os paióis repletos,
os bonançosos planos onde esbordam
oficiais, patrões, chefes, governos
Indiferentes à dor, ao sofrimento das gentes
nos sufrágios de crimes, sempre enganados.
Assim, se puderes viver em sobressaltos,
entre crimes de esutupro, homicídios e assaltos,
não escaparás de morrer nas filas da assistência,
tão cara a todos e, a todos imposta e comprada.
Assim, para não te atordoar com ameaças
de alvíssaras cruéis, desista de ser deus
para quem a si mesmo se elegeu e goza,
ainda que brevíssima, a ilusão mais triste
de que tudo pode e tudo crê, na estultice
que controla, que manda e que domina.
Deploro teu sentir de deus querendo
oferecer-te  em pão à fome humana...
Mas não venhas, não acicates a tua dor imensa
de oferecer teu sacrifício em aras
de horror, afeitas mais às duras feras
do que a teu formoso e malogrado anseio,
de converter teu gesto e teu olhar divino
em algo que relembre, mesmo na descida -
UMA SAUDADE DE DEUS EM CADA SER HUMANO.

terça-feira, 15 de abril de 2008

CONGRESSO DE POESIA

Bento Gonçalves, RS, 2006

(Inédito)


O amor

Para dizer que existe, o amor
pousou em minha janela
sua asa triste.




O vendedor de facas

O poeta dispensa
a mercancia.
Amargo punhal
é a poesia.
E para descarnar
o poema
só basta a pena.



Congresso de poesia

Interromperam a função:
foram ao brechó
buscar poetas em desusoe musas de segunda mão

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

HAVIAM DEZ ÍNDIOS SENTADOS

Eu vi, senhores, em Sukua,
dez índios sentados.
Eu vi dez índios molhados
da selva amazônica
sentados em Sukua.
Os índios não estavam bêbados,
não estendiam as mãos aos turistas,
não pediam aos frios passantes
quinquilharias de plástico,
obséquios eletrônicos
nem a doce embriaguez
da pax americana.

Eu vi dez índios sentados.
Foi em Sukua,
sob o céu de Morona Santiago,
no convulso e vulcânico Equador.
Dez índios com suas lanças,
dez índios com suas tintas
da cor do sol da manhã.
Com lanças de sangue abrem
na selva um rio sem nome,
um rio de liberdade
no peito de cada homem.

Fazem um ofício de guerra:
ensinar passo e encontro
nos descaminhos da selva.
Eu vi dez índios sentados,
os dedos na tipewriter
e a esperança na mão.
Pela distância ensinavam
com alfabetos e letras
palavras novas e antigas
que são águias disparadas
contra o ninho da opressão.

Eu vi dez índios sentados.
Senhores podiam ser
de seus destinos antigos.
Eu vi dez índios sentados
e conto à América este fato.
Conto aos índios,
conto aos brancos,
com a certeza feroz
de que uma nova lição
se pode colher segura
das tintas deste retrato.

Eu vi dez índios sentados
e disso faço notícia,
bajo el cielo azul de Sukua,
en Morona Santiago,
del dulce y convulso Ecuador.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Elegia X

Elegia para meu avô André

O Riachão das Neves fala comigo
em suas funduras.
O verde vale
de acolhimento vulcânico
tresanda a cana, mel
e terna rapadura.
Ainda sigo os asnos insolentes
nas cacimbas,
as ruas estreitas, casas genuflexas
endereçadas aos solilóquios tristes.

Por ali passou meu avô André
pastoreando cobras,
ordenhando peçonhas,
convencendo os répteis
ao homizio das furnas.

Ninguém guardou seus exorcismos,
suas benzeções, sua simples magia
de pescador e santo.

No angical,
enlaçado de raízes,
repousa o mago André, o herbolário.
Há pouco, campeava o pé-duro xucro nos gerais.
Há pouco, consultava o bornal de curas.
E ia reunindo as cobras benfazejas,
convertendo-as á paz,
evangelizando-as para a aceitação
dos humanos imperfeitos.

André passava a mão sobre as cabeças dos filhos
e procurava limpar seus horizontes.
André padecia, discreto,
a dor futura dos filhos
ao peito pressentida, em secreto.

Quando André quis morrer,
mandou buscar os tambores
da Folia do Divino.
Zumbou a zabumba. Tiniu a viola.
Sofreram os cantos da despedida.
Quando fez silêncio a liturgia santa,
André recolheu, contrito, sua alma humilde.
Naquele entardecer
o gado pé-duro lamentou.
O marruá gemeu, cavou a terra,
olhou choroso o poente
e as vacas, orfeônicas, prantearam
até se apagar a luz do dia.