sexta-feira, 14 de março de 2008

JOSÉ LOPES RODRIGUES - O CENTENÁRIO DO POETA

O conforto e os recursos da ciência médica vêm fazendo muita gente demorara na terra. Tipos preciosos honram esses dias; outros, nem tanto. Fazem o ordinário de nossa civilização. Reproduzir, acumular bens e anoitecer no esquecimento. Nem uma brisa de afeto ou canção de amor. Se muito, o ruído das travessuras. A dureza com que trataram a vida, a terra, as pessoas. Quando faltam dão ao planeta uma forma de alívio. Há gente que em poucos anos de vida enche século e até milênio. Buda, Cristo, Gandhi, Shakespeare... Nossa primeira geração de centenários não nasceu em Goiânia. Chegaram. Ajudaram a construir a cidade. Entre os que deixaram boas lembranças, pioneiros na educação, cultura artes, no tempo em que a cidade ainda se contorcia no barro, sofrendo sua angústia de alturas, recordo meu Mestre José Lopes Rodrigues. Manhãs ensolaradas da antiga Escola Técnica Federal de Goiás. Figura simples e elegante, brandamente enérgico, ensinava língua portuguesa à moçada bravia da ETFG. Veio de Almas, hoje Tocantins, começou seus estudos em Natividade, depois Barreiras e Salvador, Bahia, onde foi contemporâneo de Jorge Amado. O que dava especial brilho às suas aulas era o fato de já ensinar a atroz gramática acompanhada de textos que recitava como o soneto do “Tertuliano, frívolo e peralta...” Também sua dedicação à poesia. Vindo das influências do romantismo-parnasianao. Pendia para a última tendência, pelo zelo vernacular, rigor na perfeição das formas. Deixou sonetos bem lavrados. É autor do hino do Congresso Eucarístico de 1948. Pertenceu ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e à Academia goiana de Letras, onde foi sempre celebrado como secretário exímio, pela fidelidade nos relatos e a perfeição do texto. Nascido em primeiro de dezembro de 1908, merece o resgate de sua vida criativa, a republicação de sua obra Vibrações e textos esparsos e inéditos, inclusive alguns versos fesceninos que moram na lembrança de seus contemporâneos. Veia crítica e lúdica do poeta. Ao falecer em 1990, o Mestre José Lopes deixou heranças para várias gerações. A do professor, que naquele tempo os etefegeanos chamavam Mestre, com orgulho. A do intelectual, quando escrever, e até ler, eram ofícios da insanidade. O beletrista era olhado como um possível demente. Por isso, talvez, publicassem pouco. Um livro ou dois. A Academia Goiana de Letras, não se esquecerá de comemorar este ano seu centenário, quem sabe, com a edição de sua obra. Como homem de serena conduta franciscana, José Lopes não pleitearia esta homenagem. Mas a geração que o conheceu e poliu os sertões do Meia-Ponte deve isso ao seu poeta, que é daquelas pessoas com quem muita gente aprendeu ter fé na cultura, amor aos livros e até as ousadias da escrita. Não enriqueceram com as oportunidades de Goiânia. Não deixaram loteamentos, nem edifícios, nem bancos, nem indústrias, nem viraram prósperos e vazios políticos. Levaram sua vida ensinando, entre coisas, a beleza e o sentido que pode ter o dia do homem sobre a terra. José Lopes Rodrigues, é um desses que vai navegando no presente de nossas lembranças.
Crônica publicada no Diário da Manhã, dia 14.03.08

O BANDEIRANTE E A MEMÓRIA

Seria bom se cada um escolhesse sua memória. Escolher pais, avós tribo, povo etc. Mas não parece ser assim. As parcas ou o carma nos meteram dormentes na matéria. Despertamos e não sabemos dos programas, ou vírus que carregam o nosso HD. A memória da espécie, a herança genética que define em cada um, a cor da pele, dos olhos, o câncer, o Hitler, o Bush, ou Gandhi. Tudo pode vir no pacote inicial. Até a ilusão da poesia. Imagino, então, que ninguém é dono de sua memória. Guarda apenas dias sobre a terra. Não pode cortar nada. Viemos de muitos lugares. De muitas mães e muitos pais. Quinhentos anos contam a história da América, para os cristãos conquistadores. Séculos de ciência, músicas, crença, soterradas pela força dominante de espanhóis, portugueses, ingleses, holandeses e franceses. O maior genocídio de que o homem foi capaz. Não se dirigiu a um povo, a uma fé, a uma etnia. Desabou sobre um continente com tudo que havia nele. A Europa do século XIII e XIV vivia o sofrimento das guerras, da reforma protestante, a inquisição, a pobreza. Restava usar a tecnologia de que dispunha para empurrar seu sofrimento e avareza pelos mares. Armas de ferro e fogo, cavalos e armaduras. Tudo com a bênção da cristandade: ampliar as fronteiras da fé e do império. As armas, guerreiros e cavalos pisoteavam índios e os sacerdotes ungiam a matança, catequizavam, batizavam. Os primeiros tiravam a vida e a liberdade do corpo, os últimos seqüestravam para Roma as almas, os nomes, as crenças, queimavam códices, e introduziam o mais belo auxiliar que puderam, o Diabo. E em seu nome exorcizou, expurgou queimou a cultura dos povos da América. Nós, que caminhamos pelas ruas de Goiânia, por esses ermos para cá de Tordesilhas. Não pudemos continuar caingangues, xavantes, caiapós, carajás, cafres, nagôs ou cambindas. Nem europeus. Nossos bisavós, degredados, aventureiros, bandeirantes, tinham atrás de si coroas que diziam: avançar, escravizar, tomar, queremos nosso quinto. De outro lado, a clerigada instigando: queremos as almas, se possível com corpo, queremos escravos, queremos o ouro para nossos altares, os dízimos dos impostos de Deus. Maré bárbara. Na tsunami nos misturamos todos. Não joguemos fora Calabar, Silvério dos Reis, Domingos Jorge Velho, Anhanguera, Sepé-Tiaraju, Apoena, Raoni, Tibiriçá, os que devoraram o bispo Sardinha, ou Lampião. Não deixemos de lado Zumbi, Balaio, Bento Gonçalves, D. João VI, os Pedros, nem todos os escravos, índios, vivos ou mortos. Porque todos seguem conosco. Na nossa carne, no nosso sangue, nas nossas danças, músicas e crenças. São nossos parentes. É com eles que vamos para o futuro. É também com chegantes, italianos, japoneses, chineses, coreanos, russos, suecos, alemães que vamos dando forma a esta nação que pode ensinar a tolerância, a convivência e algum sonho de paz para a humanidade. Deixemos o bandeirante na memória. Se o vereador Rusemberg ponderar, poderá retirar seu projeto e poupar a Câmara de Goiânia do vexame de ter que votar esta infeliz matéria.
Crônica Publicada no Diário da Manhã do dia 29.02.08

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

DESENCANTAMENTO

Feliz é quem se encanta. Descobre nas pequenas coisas um mapa de mistério. Isto faz falta ao mundo. Originalidade. O homem, farto da surpresa, faz tudo igual. Palavra da moda: clone. O leitor já viu no supermercado, as embalagens: uma a cara da outra. Os frangos todos depenadinhos, plastificados, em formação, como se houvessem saído de um mesmo ninho. As flores e jardins, dispostos e podados, tão harmoniosos que não ousam estirar um galhinho atrevido, nem mesmo um despetalar mais afoito. Obedientes à tesoura do jardineiro. É a estética cemiterial dos paisagistas. Dê uma olhada nas avenidas dos condomínios fechados. Lembram logo aléias de cemitérios, bem talhadas aos moradores semi-sepultos, encolhidos, passando mortuários nos carros de vidros escurecidos, quase invisíveis. Espetam aqui um pinheiro exótico, acolá várias palmeiras alienígenas. Vivendas, reclusas, tomam um ar único de túmulos bem cuidados. Parece que paisagistas e arquitetos não olham ao redor, fogem da euforia da flora tropical, e se entregam ao gozo fácil das revistas com cenários artificiais e arvorezinhas importadas. Dê atenção aos jornais da televisão. Os repórteres esforçam-se para exibir o mesmo design. Cabelo, maquilagem, entonação e voz. Quem se lembra das frutas? Mamões de cinco ou seis quilos. Mangas de cores, tamanhos e sabores surpreendentes. Bananas, então, onde estão as chamadas roxas, santomé, goiabinha, chiadeira, naniquinha, ourinho? Restam três ou quatro tipos, medidas para caber nas embalagens. Laranjas... Já se foram: joão nunes, baiana, fofó, sangue, lisa... Há uma pera, quase sempre seca, e brilhante com um adocicado sabor de agrotóxico. Se as coisas da terra andam assim, o que dizer daquelas que o homem manufaturou? O horror da gastronomia universal, os sanduíches que encobrem em fatias de pão molhos imperscrutáveis e carnes inconfessáveis. Redondos, fofos, melosos de maionese e catchup. Os devoradores ficam na incômoda posição de cachorro que abocanhou osso grande de mais. Vai mordendo, remoendo, lambuzando a cara, respingando em montanhas de papel o rejeito da merenda. Depois empurra o embucho pra dentro, a copos ou litros de cáustico refrigerante. Com o olho na televisão, na mídia, essa gente foi perdendo alguns sentidos, a começar pelo paladar. E as mulheres... Adeus corpinho de violão! O novo estilo é de cabide das grifes de moda. Pegam as mocinhas impúberes, treinam, adestram. Vão adelgaçando, esfiapando até virarem umas garcinhas anoréxicas que enchem as burras dos fotógrafos, dos donos dos desfiles, dos olheiros do mercado de carne magra. Umas já nasceram assim, outras se fizeram assim por amor do ofício. Um dos olheiros, perito em encontrar essas carninhas novas por aí, foi didático, enquanto formava novo plantel: - Esta é até boa. Podia ser aproveitada. Porém tem um nariz ruim. Seria preciso uma plástica. Mas como a oferta é grande, não vamos perder tempo, vamos escolher quem já tem nariz no jeito.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

DEIXEM O BANDEIRANTE EM PAZ

Goiânia é um susto. Assustou os descampados da Campininha,quando Pedro Ludovico chegou e, em nome do Estado Novo, ordenou: Faça-se a cidade! Susto maior Goiânia deu no velho Goiás. Mudou rumos, ensinou caminhos, mudou rosto e fala. Puro susto, Goiânia escapou das mãos de Pedro, de Atílio Correia Lima, de Venerando de Freitas. Seguiu assombrando sertões e estirando o olhar de moça faceira para o resto do país. Insatisfeita, namorou o mundo. Exibiu vezos de Capitu para japoneses, italianos, gregos e troianos. Cativou a todos. E foi se enchendo a cidade, sempre de espantos, sustos e novidades. Desembestou no planalto. Perdeu os freios, sacudiu o cabresto. Espalhou-se numa largueza a perder de vista. Com sua prosápia de moça fácil, Goiânia enche os olhos dos incautos. É apenas misteriosa. Quando a agridem, desrespeitando seus predicados de donzela fidalga, apenas esquece. Ou deixa o nominho do ofensor tão miúdo, chulo, amorfo que esvaece sem deixar rastro. Já foi linda jóia arte decô. Infância de cidade-jardim. Pensou que podia ir crescendo, aumentando seu bem-querer, para além do desenho original. A cruz Anhanguera-Goiás tomando rumos de horizontes. Caberia todo mundo atapetando de casas e edifícios as planuras e colinas. Mas chegaram bárbaros. Chegaram gentios. Chegaram vândalos. Para esses não sobra lugar para espetar uma placa, levantar um espigão, semear um artefato de mau gosto. Nos últimos dias, apareceu um edil. A palavra servia para nomear um magistrado no império romano. Cuidava de inspecionar e conservar as coisas. Daí vem o nosso vereador. Criação dos portugueses, que tem mais ou menos as mesmas funções. Este daqui quer cassar a estátua do Bandeirante, que há muito está de pé na praça de igual nome. Bem ali, no centro da cidade. Não há goianiense ou chegante um pouco atento que não tenha este ponto como referência. Ali os estudantes se reuniam, quando ainda eram capazes de indignação e sonho. Ali se faziam os comícios da democracia aprendiz. Sempre foi reprovada, mas sempre pôde voltar a soletrar. Espetáculos de música, comemorações, festas. Por isso, a praça com sua estátua estão gravadas na lembrança, na paisagem afetiva do goianiense. Se nossos mortos têm memória, nossos pais, mães, avós levaram para o outro mundo o postal de Goiânia deste jeito. Com a praça do Bandeirante e o garboso paulista, de bacamarte, olhando para o oeste. A saga bandeirante foi cruel e árdua, como foi a conquista e saque da América Latina. Esses aventureiros carregavam um pensamento, uma crença que sustentava sua ambição. Sem eles talvez não estivéssemos aqui. Nem mesmo o ilustre vereador. Ao que se sabe, não é Xavante Carajá ou Craô. Podemos passar muita coisa a limpo. A começar pela explicação à sociedade sobre o que alguns políticos eleitos, inclusive vereadores, estão fazendo de seu mandato em favor do povo que os elegeu. Ora, deixem o Bandeirante, a cidade em paz!

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

HAVIAM DEZ ÍNDIOS SENTADOS

Eu vi, senhores, em Sukua,
dez índios sentados.
Eu vi dez índios molhados
da selva amazônica
sentados em Sukua.
Os índios não estavam bêbados,
não estendiam as mãos aos turistas,
não pediam aos frios passantes
quinquilharias de plástico,
obséquios eletrônicos
nem a doce embriaguez
da pax americana.

Eu vi dez índios sentados.
Foi em Sukua,
sob o céu de Morona Santiago,
no convulso e vulcânico Equador.
Dez índios com suas lanças,
dez índios com suas tintas
da cor do sol da manhã.
Com lanças de sangue abrem
na selva um rio sem nome,
um rio de liberdade
no peito de cada homem.

Fazem um ofício de guerra:
ensinar passo e encontro
nos descaminhos da selva.
Eu vi dez índios sentados,
os dedos na tipewriter
e a esperança na mão.
Pela distância ensinavam
com alfabetos e letras
palavras novas e antigas
que são águias disparadas
contra o ninho da opressão.

Eu vi dez índios sentados.
Senhores podiam ser
de seus destinos antigos.
Eu vi dez índios sentados
e conto à América este fato.
Conto aos índios,
conto aos brancos,
com a certeza feroz
de que uma nova lição
se pode colher segura
das tintas deste retrato.

Eu vi dez índios sentados
e disso faço notícia,
bajo el cielo azul de Sukua,
en Morona Santiago,
del dulce y convulso Ecuador.

INFERNO CELULAR

Com o aparelhinho no bolso ou pendurado no cinto, o fulano sente-se membro da família consumista. Não é um sem celular. Toma ares de importância incompreensível. Desatenção pernóstica. Interrompe conversas, invade diálogos. Já vi um que estirava o pescoço, em contorções de galinha bebendo água, falava alto para a platéia involuntária: - Olá doutor, como vai? Falou com o deputado? E nosso negócio? O Senhor sabe, os votos daqui são favas contadas. Depois de olhar, superior, a ralé próxima, desliga sorridente. Outro, de segunda idade, quase terceira, encosta o aparelhinho na bochecha de gozo sedentário e cervejadas crepusculares, murmura para alguém com blandícia e paixão. Remexe dengoso o traseiro murcho, alisa com a mão a barriga insinuante, ajeita a calça, enquanto ronrona doçuras, deixando transparecer o momento de feliz herança juvenil. Uma bicota e um hum... hum, conclui o diálogo de Romeu com alguém no ciberespaço. Para meu amigo Ostra, entretanto, o objeto místico-erótico nunca trouxe o esperado prazer. Nos primeiros dias saiu espalhando seu úmero, disparando torpedos e mensagens. Amigos, vizinhos, parentes e outros incautos. Era uma aventura apertar o botãozinho que comandava a discagem de onde estivesse. Caminhando pela rua, no barzinho, no consultório, ao volante do carrão e até nos lugares recônditos onde se cumprem as necessidades primais do ser vivo, nos banheiros, entre gemidos e sacudidelas. A lua de mel durou poucos dias. Começaram a chegar as faturas. Chamadas de lugares nunca pensados. No meio da noite. Até uma ligação de falso seqüestro. A voz sombria dizia que o irmão estava em cativeiro. Ouvia gritos e apelos. Teve a sorte do gerente do banco desconfiar do saque em dinheiro vivo e avisar a polícia. Escapou da extorsão, mas ficou traumatizado. Ligou para a tal servidora. Quero cancelar minha assinatura. Estou farto de celular. O atendente indaga o nome, CPF... Quer saber o motivo. O Ostra esclarece. Cancelar não pode, pode trocar por pré-pago. O atendente pede um tempo. Fica tocando uma musiquinha chata. Acaba dizendo que não é com ele. Vai passar a ligação. Outro atende. Pergunta tudo de novo. Se não quer outro plano. Fala de uma promoção. Ganharia tantos torpedos, mais não sei quantos minutos para falar com a sogra. Até um aparelho novo. Quero cancelar a assinatura. A ligação cai. Recomeça. Três dias depois, uma semana, um mês. Vai de São Pedro a Nossa Senhora, de atendente a atendente e nada. A conta continua chegando. Cada vez mais alta. E nada de conseguir ser ouvido. Percebe chiste e ironia no atendente treinado. Depois a ligação cai. Sísifo, recomeça. Por fim, Ostra passou a gesticular, falar para seres alados, sorrir desatinado e, para finalizar, fechou-se. Ninguém notou. Porque depois que adquiriu o celular desenvolveu esta mania de Macbeth, de conversar e rir sozinho.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Elegia X

Elegia para meu avô André

O Riachão das Neves fala comigo
em suas funduras.
O verde vale
de acolhimento vulcânico
tresanda a cana, mel
e terna rapadura.
Ainda sigo os asnos insolentes
nas cacimbas,
as ruas estreitas, casas genuflexas
endereçadas aos solilóquios tristes.

Por ali passou meu avô André
pastoreando cobras,
ordenhando peçonhas,
convencendo os répteis
ao homizio das furnas.

Ninguém guardou seus exorcismos,
suas benzeções, sua simples magia
de pescador e santo.

No angical,
enlaçado de raízes,
repousa o mago André, o herbolário.
Há pouco, campeava o pé-duro xucro nos gerais.
Há pouco, consultava o bornal de curas.
E ia reunindo as cobras benfazejas,
convertendo-as á paz,
evangelizando-as para a aceitação
dos humanos imperfeitos.

André passava a mão sobre as cabeças dos filhos
e procurava limpar seus horizontes.
André padecia, discreto,
a dor futura dos filhos
ao peito pressentida, em secreto.

Quando André quis morrer,
mandou buscar os tambores
da Folia do Divino.
Zumbou a zabumba. Tiniu a viola.
Sofreram os cantos da despedida.
Quando fez silêncio a liturgia santa,
André recolheu, contrito, sua alma humilde.
Naquele entardecer
o gado pé-duro lamentou.
O marruá gemeu, cavou a terra,
olhou choroso o poente
e as vacas, orfeônicas, prantearam
até se apagar a luz do dia.