quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

DEPOIMENTO

   







DEPOIMENTO
                                  
                                              Aidenor Aires



Estive hoje em Anápolis para participar da Segunda FLANA (Segunda Feira Literária de Anápolis) promovida pela ULA - União Literária Anapolina. Fui convidado pelas escritoras Natalina Fernandes e Simone Ataydes. Esta edição da feira homenageia Cora Coralina, representando a procissão dos poetas mortos; e Sônia Maria Santos, com a leveza funda de sua poesia, tão querida de todos nós. Na estrada, hoje quase uma avenida que liga Goiânia a Anápolis, desviava, sempre que podia, o olhar do asfalto para lamber o verde das pastagens novas, as mangueiras frutescendo, os pássaros celebrando. Minha contemplação não pôde durar muito. É preciso retornar ao real de alcatrão do asfalto com seus bólides em vertigem, sob pena de alcançar, mesmo sem querer, as pastagens celestiais. Ainda tenho alguns garranchos por aqui. Penso que não posso sair assim, sem aviso prévio. Há ainda desculpas a pedir. Beijos a lançar. Há algumas palavras que querem voar. Outras agarradas à celulose, aspirando umas maquilagens, umas podas, um certo carinho que se deve ter para com os poemas que já não podem ser reescritos. Conformam-se com sua estação medíocre, no fundo das gavetas ou no mofo das caixas e silêncio das prateleiras. Mineralizados. Lá vou eu, incorrigível, deixando o assunto que importa e enveredando pelos desgalhados da narrativa. Pois bem, me comporto. Ia mesmo era para Anápolis. A maioria dos goianienses pensa que só se vai à antiga Santana das Antas para fazer negócio ou frequentar universidade. A cidade cresceu muito, mas não abandonou as ditas "coisas do espírito". A Feira fez questão de deixar isso bem claro. Músicos, contadores de histórias, oficinas de ilustração de HQ. Nas feições cênicas, bonecos, ventríloquos, oficina de poesia, apresentação folclórica, oficina de musicalização com material reciclável e por aí vai... Ao lado de tudo isso, mais música, encontro de escritores de livros infantis. Depois palestra sobre poesia, campo em que me atrevi deitar falas. É norma consuetudinária que o poeta só precisa de uma autoridade para falar de seu oficio. Ter vivido. Ter andado amarrado às engrenagens do mundo. Um dia é barro, outro molde, outro tijolo. Demorou nos sofrimentos, beliscou alegrias. Cantou desafinado, mesmo infeliz. Poeta e santo não são muito queridos pela felicidade. Assim fora, não seriam poeta nem santo. Foi com esta autoridade que conversei com a amável gente de Anápolis: artistas, professores, músicos escritores. Não invoquei a formação acadêmica, nem as insones leituras. Acabei falando de mim mesmo. Ou das coisas do mundo que conheci, engoli e depois assoprei, certo de que, apesar do mundo, as coisas de que falei tinham minha voz, meu encanto, meu alumbramento. Acho que me convenci e acabei convencendo outras pessoas que me abraçaram, me fizeram afagos e, sobretudo, me ouviram pela dura extensão de mais de uma hora. Falar de poesia rende boas narrativas. E aqueles que ouvem pensam que o poeta fala das suas vidas, de suas aflições e até de suas utopias, do amor possível, da paz e da imagem misericordiosa do ser humano. Mas o poeta fala é dele mesmo. Não pode ser incriminado, se as pessoas, seus companheiros de jornada, venham a crer que fazem parte de tantas angustias, penas e aventuras que vai tecendo à sua frente, num malabarismo onde se gasta seu ser de névoa e verbo. Distribuindo. Depois, retornando à lucidez intestina, fomos intimados a um almoço, num pequeno restaurante colhedor, onde a proprietária, talvez a cozinheira, servia o prato já feito, com aquelas comidinhas com cheiro e gosto de mãe. Não precisamos comer muito. Limpar os pratos. Podíamos apenas provar alguns bocados para sentir aquela saciedade exsudando calor de fogão e respiração de panelas. Tudo para lembrança. Felizes são essas pessoas que semeiam conhecimento beleza e sensibilidade, sem atrapalhar o furor dos automóveis, as engrenagens das indústrias, o tilintar das moedas no comércio e nos bancos. Entendi que essas coisas não precisam estar separadas. Fazem parte da mesma trama. Da mesma argamassa humana que luta, sonha e quer ser feliz.
Feliz, deve estar Cora Coralina, mineralizada nas areias do Rio vermelho, vegetalizada nos cajus, cajás e mangabas da serra, evanescente na bruma entorpecida de baunilha, coentro e manjericão dos quintais avoengos. Feliz, sei que está a poetiza Sônia Maria Santos, com seu caminhar de pluma entre palavras impiedosamente claras. Com a melodia de seu poema, a delicadeza inteira de seu gesto de ternura e inclusão. A manhã de hoje não terminou. Despertará outras manhãs que sonham alvorecer em Anápolis. E virão nas mãos de seus artistas, seus poetas, seus educadores. Estou certo de que virão.



                                                      Goiânia, 04 de novembro de 2016.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ADVERTÊNCIA AO PEQUENO DEUS NESTE NATAL

Aidenor Aires

Hospedar no sonho humano ânsia de deus
entre névoas de eternas calmarias, anseias.
Incansável de renascer, renovas o périplo
de ser imanifesto navegando em pobreza
a face crua, a carne, o dia,  o manifesto.
Passageiro sem porto, ou mero aceno,
de carnal imaginário trespassando
o dia absurdo da vida que mascamos.
Piedoso aspirante ao berço glabro, ao mugir
das bestas e planger de sinos e estrelas,
me curvo e encareço-te a estelar mirada:
 não venhas renascer em  forma humana,
como sempre aspira a divindade.
Não há berço, não há casa, não há peito
que amoroso abrigue a tua eternidade.
São tristes e tredos trilhas e caminhos,
entre a terra e o céu não há estradas.
Não poderias, mesmo etéreo e santo,
chegar ao vão terrenal humano, desolado.
No trajeto que traz a luz à terra.
Nem mesmo um deus da dor será poupado.
Repartir o amor do ser amortalhado,
peço-te, não venhas, não sonhes
ver no homem algum lampejo,vida renovada.
É tudo sombra, é tudo morte, é tudo horror
- é tudo escombros e almas calcinadas.
Se teimas, no empíreo, armar as malas
em busca de outros Judas e outras cruzes,
te advirto, cordeiro santo!  Já não há sequer
à tua chegada, uma porta que se abra
um sino que ressoe ou pueril encanto.
Talvez nem chegues à terra em nave maternal.
Anticoncepcionais e exilados tálamos
impedirão o mesmo impulso de fazer-te
 coagulo possível de ser carne.
E se passares a barreira germinal,
não lograrás, quiçá a glória do advento.
Talvez te arremessem, em vagidos, aos dejetos
humanos, aos escuros guetos, destroçado.
Mas se ousares escapar às frias hospedagens
que se armam entre desamor e crimes,
há outros tropeços, valas e abismos
a colher cerce a infantil eternidade que ofereces.
Não desças ali, na pátria oriental
onde ensinaste a paz e acolheste
a sanguinolenta glória do martírio.
Mais que Herodes, os drones, os mísseis, as bombas
do fracasso total da humanidade, certamente
o esmagarão - infância mortiça de Aleppo e de Altamira.
Nem queiras caminhar por sobre as ondas
nos barcos que demandam os campos euros.
Naufrágios perscrutam tais caminhos
fendendo abismos de oceanos  congelados,
braços, peitos e corações humanos.
Habitarás, em pouco, o negro abismo
ou rolarás nas praias, desamparado, frágil
destroço, ou traste, da humana impiedade.
Também não venhas aspirar a mares do sul
ou verdejantes terras equatoriais;
aqui bordeja os campos estendais da fome.
Não que falte a terra, o sol, a chuva, o repetir
florido das sementes e as segas das estações.
A falta, engendram os paióis repletos,
os bonançosos planos onde esbordam
oficiais, patrões, chefes, governos
Indiferentes à dor, ao sofrimento das gentes
nos sufrágios de crimes, sempre enganados.
Assim, se puderes viver em sobressaltos,
entre crimes de esutupro, homicídios e assaltos,
não escaparás de morrer nas filas da assistência,
tão cara a todos e, a todos imposta e comprada.
Assim, para não te atordoar com ameaças
de alvíssaras cruéis, desista de ser deus
para quem a si mesmo se elegeu e goza,
ainda que brevíssima, a ilusão mais triste
de que tudo pode e tudo crê, na estultice
que controla, que manda e que domina.
Deploro teu sentir de deus querendo
oferecer-te  em pão à fome humana...
Mas não venhas, não acicates a tua dor imensa
de oferecer teu sacrifício em aras
de horror, afeitas mais às duras feras
do que a teu formoso e malogrado anseio,
de converter teu gesto e teu olhar divino
em algo que relembre, mesmo na descida -
UMA SAUDADE DE DEUS EM CADA SER HUMANO.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

CELULAR PERDIDO

Como sarna, o celular alastra-se. Mais uma inquietação. Interrompe conversa. Atrapalha enterro. Assusta a missa. Apêndice incômodo. Tudo no corpo tem seu lugar: chapéu para cabeça; sapato para os pés; luvas para as mãos. Mas celular não é coisa humana. Incômodo das prestadoras que amarram o vivente em suas contas e não soltam mais. Humano não foi feito para celular. Não pode ser pendurado nas orelhas. Não é sexy. Não é viril. Mas não consegui ficar fora da besteira geral. Adquiri um. Já são três ou quatro. Estão sempre lançando novos e tornando os velhos imprestáveis. Vejam o que me aconteceu. Ia à Feira de domingo na Vila Nova. Já fui feirante. Até hoje dói uma escoliose de carregar, sobre a coluna ainda tenra, caixas de tomate, mandioca, inhames... As mais pesadas do comércio de verduras. Não sei pra que celular na feira. Só para a mulher ficar ligando e acrescentando itens na lista de compras. Olha, não esqueça o piqui, a gueroba... No meio dos esbarrões, perdi o maldito aparelho. Só dei conta quando abria as sacolas. Alisava a cintura, apalpava os bolsos. Nada. Exalou-se o intruso já feito de alguma amizade. Aflito, comecei a telefonar para o meu número. Lá pras duas da tarde, uma voz respondeu irritada: - Quer parar de me incomodar? Estou trabalhando e você não para de telefonar! Respondi humilde ao arrogante telefonista: - Amigo, você encontrou meu celular. O único jeito é chamar, não? Do outro lado, repreensões: - Escuta moço. Eu achei o seu celular. Não roubei. Não sou ladrão. Sou evangélico. Foi Deus que pôs ele no meu caminho. Só entrego se me der um dinheiro. Ponderei, diante da extorsão, que perdera o tal celular na feira, que poderia dar uma gratificação. Dissesse-me onde encontrá-lo para resgatar o miserável. Do outro lado, a voz impôs condições: - Agora não posso. Estou em Anápolis. Se quiser, posso entregar à noite, na Praça da Bíblia. Mas são cinqüenta pratas. E não precisa ficar ligando. Ás oito da noite eu te ligo pra marcar o lugar da entrega. Após o diálogo nojento me aquietei. Liguei para a prestadora e pedi o bloqueio da linha. Já tinha me esquecido da porcaria, quando o cidadão me chama, por volta de sete e meia da noite, instruindo: - Não te falei que não sou ladrão? Vou entregar seu celular. Esteja na Praça da Bíblia em dez minutos. Estou pegando o ônibus para Caldazinha. Como não sabia este endereço, pedi que ficasse no Frango Gostosão. Afinal, ali é mais claro. Saí correndo. Dez minutos... Bordejava a praça, Tânia ao volante e eu perquirindo sombras. Na luz do frango assado, Gostosão vejo uma figura curvada ao peso de um saco sujo. Gritava e gesticulava. Estou aqui. Sou o Romualdo. Estou com seu celular. Já estava íntimo. Veio sorrindo. Entreguei-lhe uma nota de cinqüenta, passou-me o aparelho e ainda me deixou uma admoestação severa: - Por que você foi bloquear a linha? Não confia em mim não? Já disse que não sou ladrão. Sou evangélico. Agradeci. Peguei o celular. E resmunguei: - Não se esqueça do dízimo do pastor!
  


Texto do Livro Mínimo Olhar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

DOMINGOS FÉLIX DE SOUZA - MESTRE DE SILÊNCIOS

Perdemos um grande intelectual e ser humano com o desaparecimento de Domingos Félix de Souza. O texto a seguir é parte de minha homenagem.

DOMINGOS FÉLIX DE SOUZA - MESTRE DE SILÊNCIOS

Aidenor Aires*

Domingos Félix de Sousa fez parte da mais importante geração de intelectuais que Goiás conheceu. Pela primeira v...
ez pode-se enumerar no grande interior vozes competentes de poetas, narradores e críticos dando forma a um todo criativo conhecido como Literatura Goiana, ou Literatura Brasileira feita em Goiás. As definições não me angustiam. Falo de espíritos que elegeram, como prioridade, a produção de uma obra de vida. Uma espécie de profissionalismo literário, se é conveniente chamar de profissão o ato de escrever. Os escritores que compõem a cena goiana no século passado, adentrando pelo presente, superam o mero diletantismo ou hedonismo dos seus predecessores que, com poucas exceções, foram autores de um único livro, textos esparsos em jornais revistas, ou compêndios de memória. Alguns nomes que se projetaram e fazem parte da estação madura de nossas letras deixaram obras significativas. Abordaram temas contemporâneos e exploraram as possibilidades da linguagem no manejo atual do idioma. Falaram de Goiás, revelando o humano universal em seus enredos. Antes de políticos, oligarcas ou ilustrados juristas e professores, os escritores contemporâneos são identificados por sua obra literária. Bernardo Elis, Hugo de Carvalho Ramos, Eli Brasiliense, Cora Coralina, José Godoy Garcia, Basileu França, Carmo Bernardes, A.G. Ramos Jubé, Gilberto Mendonça Teles, seu mano José Mendonça Teles, e muitos outros que a história já solidificou, desenham o Goiás moderno, de raízes profundas e poderosas faces identitárias. Quem viveu os tempos da mudança da capital, da Revolução de Trinta, das insurgências das correntes políticas e estéticas, da Informação Goiana, Revista Oeste, Quarto Poder e da emergência do parque gráfico e editorial que ia se desenvolvendo não pode se esquecer desses novos desbravadores. Eles não descobriram Goiás como bandeirantes. Foram intérpretes de nossa alma interior, de nosso isolado construir humano. Fizeram a conexão primordial entre os goianos e dos goianos com o Brasil e o mundo. Se muitos foram artífices de um discurso que conferia vez a esta gente, outros alisaram terrenos, fizeram picadas, seguiram como guias e maestros, cuja sabedoria e modéstia insuflavam nos bastidores solos, coros e apoteoses das ribaltas. Neste mister passou brilhando a inteligência de Domingos Félix de Sousa. Foi poeta, contista, crítico. De talento tão poderoso que se permitiu dissipar, perdulário, sua rica criatividade. Jamais se preocupou em reunir seus textos em livros. Deixava-os voar por aí em prefácios, artigos, narrativas. Conformava-o um gesto pedagógico de repartir. Ia, em seu magistério literário, amparando iniciantes, polindo inteligências, apontando alpondras e trilhas aos aventureiros das letras. Todos nós, que viemos depois, aprendemos com Domingos Félix. Muitos o buscaram, desfrutaram de sua sabedoria, empurrados para a própria viagem socrática de si a si mesmo. Agora, que irrefreável torrente de Cronos leva sua voz, sua serenidade exigente, sua amorosa disciplina, apresenta-se para tantos, uma prodigiosa orfandade. A herança é sua arbitragem ideal e terna. Membro de uma família de artistas e escritores, Domingos reverenciava a lira do irmão Afonso Félix de Sousa e a força narrativa da irmã Aída Felix de Souza. Alegrava-se com a missão de seiva transbordando e irrigando o canteiro de uma geração. O clamor que permanece é a necessidade de reunião de seus textos. Devem ser recolhidos e publicados para que sua serena lição possa compor o diálogo, também, do futuro. Sua filha, Maria Lúcia Félix, escritora de berço, esforça-se para que o legado de Domingos não desapareça. Ajudemo-la. As letras se fazem com livros, tomos bibliotecas, mas também com a pluma silenciosa e beneditina. Embora temporariamente silenciada, a voz de Domingos Félix apenas espera, enquanto seus ouvidos acatam a diversidade das vozes. Sua morte, de repente, atualiza e cristaliza seu amoroso vulto, a poesia, sua rica e generosa existência.

*Aidenor Aires, escritor, da Academia Goiana de Letras.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

AÍ VEM O ESTADO DO SÃO FRANCISCO - Parte Final

Acostumados à riqueza fácil do ouro e das pedras preciosas, não se interessaram pela imensa região de economia agropecuária. Relembra a FUNDASF que ainda como hoje, administrar se resumia em cobrar imposto para os cofres de sua majestade. Diante do abandono, D. Pedro I ofereceu em 1826 a região à Bahia, que a aceitou. Foi anexada por um ato provisório em 1827 que inercialmente vem sendo mantido até hoje. O povo do Oeste baiano, da margem do São Francisco, habitantes da antiga Comarca do mesmo nome, reclama da falta de vínculos culturais com Salvador, isso em razão de origens diversas, o que leva o povo da região a apresentar outra face cultural, com expressões também diferentes. Invocam maior vizinhança e afinidade com Goiás e Tocantins do que com a heráldica Bahia de São Salvador. O intercâmbio da região se dá mais com cidades do Tocantins, Goiânia e Brasília do que com Salvador. Alegam que não perderão tradições baianas, porque elas nunca fizeram parte de suas vidas. Localizam suas raízes na antiga Comarca do São Francisco desde as revoluções Pernambucanas. Aí sim, reside a origem de sua tradição, o berço de seu modo de ser, alimentar, morar e todas as manifestações culturais. A idéia da criação do Estado do São Francisco se escora nessas tradições, nas diferenças econômicas, porque a região sempre teve economia agropastoril, que agora ganha força com as levas de ocupação sulista com impacto poderoso na produção, mo meio ambiente e na cultura. A região sente-se debilitada pelo abandono que sua diversidade tem encontrado nos governos da Bahia. A criação do novo estado poderá abrir horizontes para sua gente. O fortalecimento da cultura regional imprescindível ao Brasil plural. Poderá redefinir objetivos e ganhar com o atual fluxo de progresso baseado na produção de frutas e grãos, seguido da industrialização, trazendo para dentro de si um governo que possa administrar o novo estado a partir de sua própria realidade, anseios e necessidades. Consultando esses breves argumentos. O povo de lá tem muito mais. Pode-se ver que a criação do Estado do São Francisco é um futuro a que não se pode fugir. Quanto mais cedo vier, mais passo terá dado o país para seu mais orgânico, igualitário e humano desenvolvimento. Pensando nisso, me veio à lembrança uma estrofe de um poema que escrevi há muito tempo: Eu vou sozinho e sou muitos/esta é a minha fortaleza/o sangue que vem de longe/no meu corpo se represa/quem vem da raça que eu venho/não pode cantar fraqueza. (...) Eu vivo é fora do tempo/no meu tempo não há pressa/nos meus mortos vejo o rio/onde o futuro começa. Diário da Manhã, 30.05.08

VEM AÍ O ESTADO DO SÃO FRANCISCO

Quem observa o mapa do Brasil pode ver, além de sua extensão continental, uma enorme disparidade em sua divisão interna. A Federação é uma colcha de retalhos disforme. Coisa que começou com as capitanias hereditárias, continuou nas províncias e se mantém nos estados republicanos. Uns, pequenos como o Sergipe; outros, gigantescos como Amazonas, Pará, Minas e Bahia. Goiás já foi assim, até que a criação do Tocantins beneficiou os dois territórios que ganharam desenvolvimento e progresso, antes impossíveis. Germinam hoje vários projetos de divisão desses estados colossais que sofrem com desigualdades internas. Com a distância de suas metrópoles. Com a mania colonialista das administrações que só olham para as regiões mais distantes e pobres para saquear, buscar produtos e impostos, enquanto sonegam estradas, escolas, saúde e o conforto da riqueza e da vida moderna. A redivisão territorial é um desafio que o país tem que enfrentar para aproximar o poder do povo, colocando nas vizinhanças de todos os cidadãos os centros de decisão. Afinal, esse povo também precisa ser ouvido. Como sucedeu com o irmão estado do Tocantins, a região do oeste baiano beirando o Velho Chico pulsa em ânsias de emancipação. Traz nos alforjes e bruacas argumentos irrefutáveis. Em primeiro lugar, o colorido cultural. Aí não é a Bahia do recôncavo, do litoral, com seu jeito malemolente de capoeira, berimbau, candomblé, do cacau e do petróleo e do axé. É o sertão de Euclides da Cunha, do vaqueiro encourado, da bravura jagunça e cangaceira, das vaquejadas, do forró, do repente, das devoções atávicas, caldeadas na mestiçagem mameluca, cafusa, barranqueira, geralista ou brejeira. Cultural e etnicamente está mais próximo do centro-oeste e do nordeste do que da doce madrasta Bahia dos trios elétricos, dos afoxés e dos terreiros. Outro argumento enraizado no tempo é o de que esta região que molha o rosto no Velho Chico, encosta as espáduas na Serra Geral de Goiás, na Serra da Tabatinga com o Piauí e a Serra dos Irmãos, até Pernambuco, nunca foi Bahia. Já nasceu sendo São Francisco. A matéria é bem conhecida e explicada pela Fundação de Integração Cultural e Cidadania do Alem São Francisco, com sede em Barreiras. No período das Capitanias hereditárias, de 10 de março de 1534 até 1824, estavam ligadas a Pernambuco. Foi desmembrada depois da revolta dos pernambucanos para criar um país na conhecida Confederação do Equador. Para enfraquecer e punir os pernambucanos que queriam deixar de ser brasileiros, formando o novo país, a região de chuvas torrenciais, rios perenes e muitas riquezas foi anexada, primeiro por D.João VI, em 1817, depois por D.Pedro I, em 1824, separaram a área de Pernambuco, anexando-a a Minas Gerais, por seus limites ao sul. (Estimado leitor, continuo na próxima semana ) Diário da Manhã de 23.05.08

domingo, 18 de maio de 2008

CELULAR PERDIDO


Como sarna, o celular alastra-se. Mais uma inquietação. Interrompe conversa. Atrapalha enterro. Assusta a missa. Apêndice incômodo. Tudo no corpo tem seu lugar: chapéu para cabeça; sapato para os pés; luvas para as mãos. Mas celular não é coisa humana. Incômodo das prestadoras que amarram o vivente em suas contas e não soltam mais. Humano não foi feito para celular. Não pode ser pendurado nas orelhas. Não é sexy. Não é viril. Mas não consegui ficar fora da besteira geral. Adquiri um. Já são três ou quatro. Estão sempre lançando novos e tornando os velhos imprestáveis. Vejam o que me aconteceu. Ia à Feira de domingo na Vila Nova. Já fui feirante. Até hoje dói uma escoliose de carregar, sobre a coluna ainda tenra, caixas de tomate, mandioca, inhames... As mais pesadas do comércio de verduras. Não sei pra que celular na feira. Só para a mulher ficar ligando e acrescentando itens na lista de compras. Olha, não esqueça o piqui, a gueroba... No meio dos esbarrões, perdi o maldito aparelho. Só dei conta quando abria as sacolas. Alisava a cintura, apalpava os bolsos. Nada. Exalou-se o intruso já feito de alguma amizade. Aflito, comecei a telefonar para o meu número. Lá pras duas da tarde, uma voz respondeu irritada: - Quer parar de me incomodar? Estou trabalhando e você não para de telefonar! Respondi humilde ao arrogante telefonista: - Amigo, você encontrou meu celular. O único jeito é chamar, não? Do outro lado, repreensões: - Escuta moço. Eu achei o seu celular. Não roubei. Não sou ladrão. Sou evangélico. Foi Deus que pôs ele no meu caminho. Só entrego se me der um dinheiro. Ponderei, diante da extorsão, que perdera o tal celular na feira, que poderia dar uma gratificação. Dissesse-me onde encontrá-lo para resgatar o miserável. Do outro lado, a voz impôs condições: - Agora não posso. Estou em Anápolis. Se quiser, posso entregar à noite, na Praça da Bíblia. Mas são cinqüenta pratas. E não precisa ficar ligando. Ás oito da noite eu te ligo pra marcar o lugar da entrega. Após o diálogo nojento me aquietei. Liguei para a prestadora e pedi o bloqueio da linha. Já tinha me esquecido da porcaria, quando o cidadão me chama, por volta de sete e meia da noite, instruindo: - Não te falei que não sou ladrão? Vou entregar seu celular. Esteja na Praça da Bíblia em dez minutos. Estou pegando o ônibus para Caldazinha. Como não sabia este endereço, pedi que ficasse no Frango Gostosão. Afinal, ali é mais claro. Saí correndo. Dez minutos... Bordejava a praça, Tânia ao volante e eu perquirindo sombras. Na luz do frango assado, Gostosão vejo uma figura curvada ao peso de um saco sujo. Gritava e gesticulava. Estou aqui. Sou o Romualdo. Estou com seu celular. Já estava íntimo. Veio sorrindo. Entreguei-lhe uma nota de cinqüenta, passou-me o aparelho e ainda me deixou uma admoestação severa: - Por que você foi bloquear a linha? Não confia em mim não? Já disse que não sou ladrão. Sou evangélico. Agradeci. Peguei o celular. E resmunguei: - Não se esqueça do dízimo do pastor!
Texto publicado no Diário da Manhã em 16.05.2008