quarta-feira, 25 de janeiro de 2017





PREMIO NOBEL PARA GABRIEL LNASCENTE
                                                                                Aidenor Aires*



Muita coisa se passou depois de janeiro de 1950, data em que emergiu e ganhou passos o poeta Gabriel Nascente. Nosso encontro se deu, pela primeira vez, por volta de 1958/59. Em 1958 havia falecido seu pai, Antônio Estrela Nascente, o Tonico Nascente, prematuramente, com apenas 36 anos de idade, deixando viúva D. Antônia Barbosa Nascente, com uma prole de Sete filhos, sendo Gabriel o quaro entre eles.  Mudaram-se, por algum tempo, para a Vila Nova, onde eu já vivia. Ali nos conhecemos ainda crianças. Hoje, ao completar 67 anos, o menino da rua 74, no antigo Bairro Popular, carrega na estrutura frágil e no olhar sempre ébrio de metáforas o luminoso peso de 50 anos, quase a vida inteira, de poesia. Haveria muito que falar de nosso reencontro e convivência nesse hiato de tempo, ou hiato de nossas vidas paralelas. Mas isto é assunto exorbitante para o mero registro que faço a pretexto da efeméride.  Desde o ano de 1964, nos corredores da ilustre Escola Técnica Federal de Goiás, herdeira da antiga Escola de Aprendizes e Artífices da Cidade de Goiás, até o dia de hoje, Gabriel não viveu um dia sequer sem poesia. Recordo-me de um dia, naquele ano aziago para o Brasil (64), que Gabriel nascente, após assistir a um espetáculo no anfiteatro da escola, se empolgou com a performance da trupe, principalmente com seus monólogos poéticos com temas contemporâneos enfocando os problemas do país, naqueles dias nervosos que antecediam o golpe de 1964. No dia seguinte, Gabriel, que vivia um início de adolescência conflitado e inquieto, apareceu na sala de aula com os rabiscos de um texto denominado Nordeste, sombra dos monólogos que presenciara na peça exibida no auditório da Escola. Pôs-se logo a recitar seu texto de intenção fortemente dramática, vociferando contra as mazelas do Nordeste, assunto muito em voga: seca, fome, severinos, carcarás, migração, etc. O diferencial era que, ao declamar o texto trágico, o poeta nascente, sem trocadilhos, exibia simiologia cômica, gestos grotescos, expressões faciais histriônicas que espantavam o pequeno auditório de sua sala de aula. A reação momentânea foi explosões de gargalhadas, aplausos e uivos da turba adolescente. A partir daí o menino que vivia correndo de bicicleta, comprando uma espingarda para atirar no bosque do Botafogo, construindo submarino para imergir nas águas do ainda limpo e piscoso Meia Ponte, subindo nos telhados do Bairro Popular e frequentando diariamente o departamento de orientação educacional e psicologia da escola, passou a dedicar-se à produção de poemas. Tinha muito próximos, este depoente que já rabiscava alguns versos e declamava os longos poemas de Castro Alves, Eduardo Jordão, um estranho mulato que também escrevia versos manquitolantes, apodado por Gabriel de “Touro”; além de professores intelectuais, como Bernardo Élis, José Lopes Rodrigues, Geraldo da Paixão, Jorge Félix de Sousa, Edmar Fleury, o orador espírita Niso Prego, professoras Maria da Cunha, Gilka Machado, lembrando apenas alguns. Na tipografia da escola descobriu o livro Primeira Chuva, de Bernardo Élis, Pássaro de Pedra e A Poesia em Goiás de Gilberto M. Teles, Contos para Ler de Pé, de Eduardo Jordão, Tardes do Nada de Edir Guerra Malagoni e a obra inaugural de Yêda Schmaltz, Caminhos de Mim. Nesse ambiente de efervescência política e cultural, Gabriel abraçou integralmente o partido da poesia. Dia e noite lia, escrevia e fazia contatos com escritores que ponteavam a cena goiana, indo dos consagrados aos emergentes do Grupo de escritores Novos, o GEN. A lavoura poética que iniciara em 1964, já havia produzido, no início de 1965, o opúsculo Os Gatos, trazendo apresentações de Bernardo Élis e Jesus Barros Boquady. Desde o insight inicial, o poeta não mais deu sossego a ninguém em constante furor poético e inadaptação à disciplina escolar. Submetido a exames psicotécnicos e psicológicos, o furor poético de Gabriel punha em pânico sua mãe, D. Antônia, e os orientadores e dirigentes da escola. O aparente desequilíbrio mental do poeta, frente ao que se entendia por normalidade, levou a escola, inspirada pelo professor Geraldo da Paixão, a encaminhá-lo a um profissional da psiquiatria conceituado em Goiânia. Após consultas, oitivas e procedimentos de sua ciência, o facultativo exarou peremptório: Não tem doença mental, nem transtorno psíquico. É poesia mesmo. Isto não tem remédio”.  A palavra do médico representou o habeas corpus, a ordem de soltura para o poeta e sua arte. Olhando o horizonte precluso de 50 anos vejo que Gabriel não envelheceu. Parece que seu corpo com apetite de passarinho foi ficando menor, mais frágil como maneira de acolher o menino, o arco da lira plangendo os vagidos da infância que não deixam de afligir a insônia do mundo. São mais de cinquenta livros, numa cascata crescente de indisciplina formal e saraivadas de símiles, polissemias, animismos, metonímias, hipérboles e metáforas. A vida escorre em pura linguagem. Em todo o discurso, o peso das longas interjeições e aflitas interrogações. É uma fala incansável de descobertas e espantos. Linguagem de pouca alegria e muito sofrimento. Sem poder ser outra coisa, esgota-se em pura poesia. Os problemas do mundo, o sofrimento dos homens, as perdas da infância permanente, as paisagens, as cidades e os amores estão sempre aí, na sua palavra de inflamação enferma, captados de uma forma mediúnica, abraçam uma realidade para além do real, ou cria um real arquetípico, num tempo de total isenção, e impertencível. Suas intensas leituras de inúmeros autores marcam aqui e ali, o mapa das influências confessáveis que alimentam o caudal de sua criação. No fundo, porém, de sua floresta de signos vão se debatendo plangentes significados e busca da forma visível de sua expressão. Canta a liberdade total, uma quase escrita automática que expõe, depõe, exalta e demole parâmetros lógicos, estéticos e técnicos da elaboração poética. Amado, admirado e, não raro discriminado, punido em sua poesia por ser quem é, o poeta assombra e enche de luminoso talento nossa época sem valia. Sua sensibilidade porosa absorve e transfigura as aflições do mundo e dos homens. Transmite, numa compreensão simbólica a descrença, o horror, o predomínio do mal e da insensibilidade, a falência do sonho humano.  Mais de cinquenta livros atestam sua permanente insatisfação, como se dissesse que não basta um poema, nem dez, nem cem, nem mil poemas. É necessário um rio, um oceano, uma galáxia de poemas dirigidos talvez a leitores do futuro. Gabriel ultrapassa, por sua estranheza, o conceito acadêmico do poema e abre espaço para indagações multidisciplinares de sua produção. No veículo de sua vasta produção editada traz o testemunho avalista de grandes nomes da literatura contemporânea que, certamente não lhe dedicariam comentários e fartos elogios se sua obra não merecesse deles o inteligente acatamento. Nem merecia ele os prêmios que arrebanhou. Gabriel nestes cinquenta anos de cantos e jeremiadas eleva a poesia ao patamar de ofício divino, como sempre fizeram, os vates e aedos. Por tudo isso, só podemos compreender sua poesia como mistério e sua voz como profecia.  Mesmo que ainda torçam o nariz para sua figura frágil com ar de desamparo, mesmo que não chegue à Academia Brasileira de Letras, Gabriel merece o Prêmio Nobel. Não há no Brasil, nem na literatura conhecida uma voz tão autêntica, tão pura e original a noticiar o drama do homem, no que tem de local, contemporâneo, globalizante e universal.  Celebro beleza de sua poesia. Celebro a riqueza e o encanto de sua obra.  Conclamo as inteligências e as instituições culturais e políticas de Goiás, como homenagem lídima, nas comemorações desse meio século de inspiração e canto, a indicação de seu nome para o próximo Prêmio Nobel de literatura.  Isto honra o poeta. Isto honra nossa terra e nosso tempo.



·         Aidenor Aires – escritor, membro da Academia Goiana de Letras e Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

NAZARENO CONFALONI ENTRA NO CÉU





NAZARENO CONFALONI ENTRA NO CÉU
                                                          Aidenor Aires

(Poema escrito em homenagem a Frei Confaloni, na ocasião de sua morte, em 04 de junho de 1977. Hoje, data de seu nascimento, comemora-se também seu centenário.)


Te conheci tarde
como conheci Zé Décio, um dia antes de sua morte.
E te vejo agora,
anjo barroco e rotundo
despojado de asas
 e sério.

Cobriram tua humildade com linho,
com este barrete alvo
e eu venho tocar tuas mãos frias,
agitar o lenço
e ver a última vez
as tuas sandálias.
É certo que, ser impuro, não sei os teus caminhos,
Por isso não trouxe um bornal de paçoca,
Um quarto de rapadura e uma moringa de água.
Não sei se é permitido bagagens
nem farnel
para onde vais, assim, definitivo.

Não sei se passarás a nado
um lago escuro e precises de uma candeia de cera
em tua sombra.
Não sei se te espera um barco, um potro arisco,
ou mesmo um asno bíblico e humilde
de onde continuarás com as sandálias tocando o chão.

Não sei se há música nesse teu caminho,
por isso não trouxe os atabaques de minha gente humilde,
que também foi tua, e que serviste.
Não trouxe o berimbau nem as cuícas
que, por certo, gemerão nessas malocas
uma dor mais antiga.

Cobriram-te com este barrete alvo
e até os pés desceram
as dobras do linho
e ficaste assim, um pouco sério,
neste pesar definitivo.

Não sei se os tempos são os mesmos
e o céu cristão permaneça antigo.
Creio que te darás muito bem com Deus,
que ficará coçando os picumãs eternos
da barba
olhando quadros teus.
Não sei se já criaram aí,
se é para aí que vais com tuas sandálias
e teu pano de linho, um ateliê para os pintores,
não me consta que esses ofícios
fossem bem vistos no céu.

Houve sempre alaúdes
eternamente afinados
para legiões de anjos afeminados.
Nunca soube de operários no céu,
e o que aí chegou, aquele da pedra,
virou leão-de-chácara.
Se os tempos forem os mesmos
e Deus reinar eternamente sobre os pobres mortais,
vais te dar mal
nesses confins de eterna luz
e nuncamais.

Andarás pelos corredores do empíreo
com teus cavaletes e teus quadros, espalhando
pincéis e borrifando o rosto absoluto
com essas manchas da terra.
Como poderão, ao lado do Altíssimo,
as tuas madonas negras
de rosto esférico
e olhar tristíssimo
ficar entre quérulos anjos tagarelas?

Depois os lixeiros do céu implicarão
com teus pincéis, se por aí não encontrares
um Fra Angélico, um Da Vinci
e mesmo, que será melhor,
um Van Gogh, um Picasso,
um Portinari ou Di Cavalcanti muito fogoso
com um batalhão de mulatas,
será dura a vida, se as coisas não mudaram.

Dizem que a censura no céu
é coisa dura. Tentaram reeditá-la na terra
e, por mais que dura fosse,
nunca chegou aos pés da coisa eterna.
Por cero implicarão com teu sorriso,
com teu vinho,
com o modo como pisas
e teu jeito de ficar
e ser sozinho.

Eu venho tocar as tuas mãos frias,
agitar o lenço
e ver a última vez tuas sandálias.
Não sei se para onde vais
ouve-se os ruídos da terra,
E se adianta encher-te de recados
Como se a morte te fizessem estafeta do céu.

Creio que estás fatigado da miséria humana,
das injustiças, das opressões,
e precisas descansar
de tantas e tantas peregrinações.
Por isso não te peço que incomodes
tua nova vida com suas coisas novas:
a casa que arrumar, uns cavaletes novos, os pincéis,
as telas, um lugar onde pintar,
se houver o que pintar, exceto o rosto de Deus,
nesse mundo exemplar.

Não te peço que incomodes a paz celestial
E chegues aí logo criando caso com reclamações
aos pés da Mãe-de-Deus,
que o Incriado fez para si,
temendo a solidão.
Não te peço que insultes o Absoluto com nossas querelas,
Isso é coisa que devemos resolver.
Não te peço que intercedas pelos injustiçados,
que peças luzes para os que governam,
que advogues pela família,
maldizendo o divórcio.
Estou certo de que isso é outro negócio
e cada um tem o governo
e a injustiça que aguenta.

Te conheci tarde
Como conheci Zé Décio, um dia antes de sua morte.
Mas venho tocar tuas mãos frias,
agitar o lenço
e desejar boa viagem.
Que se arrume logo a tua vida
nessas eternas paragens.
e que se abra uma individual no céu,
mal acabada a viagem.


domingo, 1 de janeiro de 2017

NESTAS FESTAS DE FIM DE ANO








NESTAS FESTAS DE FIM DE ANO


Nestas festas de fim de ano

cumprimos solidárias promessas,
sonhos humanos de estima fraterna 
e desinteressado amor.
Invocamos os mitos amorosos de esperados profetas,
crentes nas possíveis manhãs para renascer.
Por momentos, enquanto é farto o pão,
embriagante o vinho,
infinitas as luzes,
vivemos dias sem remorsos.
Não estão à nossa mesa os desterrados do mundo,
os desertados do amor.
Não vêm à ceia abastada
os miseráveis das ruas, os refugiados sem abrigo.
Nossos gritos de exaltação,
nossas salvas e vivas não incluem a mudez 
que cala a injustiça.
Fazemos votos de amor perene
e de perene encontro de corações e almas.
Nada disso nos absolve.
Nada nos conduz
à utopia original que desenhamos
no abandono humilde de uma manjedoura de Belém.
Nada disso nos comove mais.
E de alguma cruz de atroz e luminosa memória 
amanhã, outra vez, conciliados,
NOS ESQUECEREMOS
.

PAPAGAIO REAL, VOLTAR PARA PORTUGAL!





PAPAGAIO REAL, VOLTAR PRA PORTUGAL!





   Neste início do na de 2017, deixando em esforço de esquecimento o que se finda, cabe algumas reflexões sobre enfermidades teimosas que acometem o corpo do Gigante deitado. Uma vez, nos tempos da última ditadura, assisti à palestra de uma alta patente do regime, egresso da Escola Superior de guerra. A conferência fazia parte da disciplina Estudos de Problemas Brasileiros, então em voga nas universidades. Após desfiar com entusiasmo argumentos geopolíticos, território de configuração continental, riquezas estratégicas, e demais itens pertinentes à disciplina nomeada pelo sueco Rudolf Kjellén, demorou no quesito população. Concluiu, em minúscula síntese, digo eu, que todos esses aspectos de base material eram favoráveis e, ufano, exaltou esses infindáveis, infinitos e disponíveis recursos a serem mobilizados para alavancar o despertar do Gigante sonolento. Havia, porém, um entrave. A dúvida sobre o homem brasileiro. Não se tinha certeza sobre a viabilidade desse estranho ser vindo de uma colonização criminosa, do estupro e do massacre dos indígenas, do sangue da escravidão. Nem mesmo a mestiçagem que se formou depois podia dar certeza das faculdades de progresso dessa heterogênea formação humana. Partilhava o conferencista de ideias comuns a estrangeiros e brasileiros. Aquelas de que o homem brasileiro, como produto infeliz de uma miscelânea étnica cultural, estava fadado ao fracasso e, possivelmente com ele, o país. Não quero dar razão àquele teórico autoritário filiado a o euro centrismo excludente e preconceituoso. Mas, os primeiros cronistas informam que os portugueses que aqui vinham buscar riquezas, tinham como objetivo levar o que podia para Portugal. Pau Brasil, ouro, pedras preciosas, animais, plantas, açúcar, suor e sangue humano. Não queriam criar raízes e só defendiam a terra quando suas riquezas eram ameaçadas, ou corriam risco as fronteiras da fé e do Império. Brasileiro não podia ter escola, livro, estradas ou poder de decisão. Como herança desse desamor inicial, parece que herdamos e continuamos cultivando um ferrenho desamor por esta terra. Pelo menos a maioria da elite que tem poder. Apropriam-se do que tem o país, das riquezas naturais, daquelas produzidas pela transformação industrial e, o que parece pior, apropriam-se dos sentimentos e dos sonhos da população. Como os portugueses, ensinavam aos seus louros: “Papagaio real, voltar para Portugal. Desprezo nauseante cultivam pela terra e a gente. Enriquecem na esperteza, confundem o público com o privado. Pouco se importam com a miséria, a fome, a ignorância. Se possível, aproveitam-se dessa condição das extensas massas miseráveis, dedicando a elas um paternalismo subjugante, mantendo assim clientela permanente de suas ambições gamonais. O brasileiro, tratado por diversos rótulos redutivos, como preguiçoso, malandro, “safadão”, lubrico, abestado, em suma, irresponsável, sofre a contínua lavagem cerebral que o leva a aceitar como normal, e até motivo de orgulho a ser mostrado e exportado. A baixa estima, o coitadismo, o cinismo ou o histrionismo passam a ser características exaltadas pela mídia, pela publicidade, pela moda e, claro, pela política. Basta ver os apodos dos candidatos nas eleições. E os que são eleitos. O jogador de futebol analfabeto, o que nunca leu um livro e vira presidente. O religioso inculto, o policial criminoso, o traficante, e até o abestado ou qualquer poste. A gente sem auto estima, acostumada a fazer rir ou rir de si mesma. Acha normal essas escolhas, porque, em fim, escolhe alguém igual a si mesmo. Dele se cobra apenas o espetáculo, o carnaval, a torcida histérica. Neste cenário não há lugar para pensadores, professores, cientistas e estudiosos. São esquecidos, desestimulados e só são reconhecidos, muitas vezes, depois de serem consagrados no exterior. Não queria ir por esse caminho pessimista. Não penso que a população brasileira se divida em lesos e aproveitadores. No correr do tempo negou-se a nossa gente oportunidades, educação, tratamento digno, cevando a baixa estima que faz nossos filhos fugiram para outros países exercitarem ofícios degradantes, clandestinos e humilhantes. Quando voltam, com alguns dólares, sentem-se maiores, mais gente, mais feliz - superiores. Nunca concordei com esse desenho do brasileiro. Passei minha vida observando, discutindo nossa cultura, sondando nossas identidades. Como fruto mestiço da exclusão,o que vejo é resistência. É luta desigual. Poucos têm tudo. Enchem as burras e depositam em contas nos paraísos fiscais. Lavam dinheiro em fazendas, boiadas, leilões e laranjais, que não produzem frutas, mas usufrutos. Não fora a Lavajato, jamais saberíamos a extensão do saque, do esbulho, do parasitismo que as chamadas elites políticas praticam contra a nação. Para eles, de riso alvar, caras recauchutadas e cabelos tingidos, nós somos o rebanho a ser tosquiado, sangrado, abatido. Cabe a nós demonstrar o contrário. Não deixar morrer o trabalho do juiz Moro, dos procuradores do MP, da Polícia Federal e dar a resposta à súcia, não só na indignação das ruas, mas no recôndito das urnas, exigindo inclusive dos partidos, a explicitação de seus programas e a seleção dos candidatos que impingem ao eleitor. Penso que este país já não é o mesmo. E que já estamos autorizados a ter alguma esperança.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

DEPOIMENTO

   







DEPOIMENTO
                                  
                                              Aidenor Aires



Estive hoje em Anápolis para participar da Segunda FLANA (Segunda Feira Literária de Anápolis) promovida pela ULA - União Literária Anapolina. Fui convidado pelas escritoras Natalina Fernandes e Simone Ataydes. Esta edição da feira homenageia Cora Coralina, representando a procissão dos poetas mortos; e Sônia Maria Santos, com a leveza funda de sua poesia, tão querida de todos nós. Na estrada, hoje quase uma avenida que liga Goiânia a Anápolis, desviava, sempre que podia, o olhar do asfalto para lamber o verde das pastagens novas, as mangueiras frutescendo, os pássaros celebrando. Minha contemplação não pôde durar muito. É preciso retornar ao real de alcatrão do asfalto com seus bólides em vertigem, sob pena de alcançar, mesmo sem querer, as pastagens celestiais. Ainda tenho alguns garranchos por aqui. Penso que não posso sair assim, sem aviso prévio. Há ainda desculpas a pedir. Beijos a lançar. Há algumas palavras que querem voar. Outras agarradas à celulose, aspirando umas maquilagens, umas podas, um certo carinho que se deve ter para com os poemas que já não podem ser reescritos. Conformam-se com sua estação medíocre, no fundo das gavetas ou no mofo das caixas e silêncio das prateleiras. Mineralizados. Lá vou eu, incorrigível, deixando o assunto que importa e enveredando pelos desgalhados da narrativa. Pois bem, me comporto. Ia mesmo era para Anápolis. A maioria dos goianienses pensa que só se vai à antiga Santana das Antas para fazer negócio ou frequentar universidade. A cidade cresceu muito, mas não abandonou as ditas "coisas do espírito". A Feira fez questão de deixar isso bem claro. Músicos, contadores de histórias, oficinas de ilustração de HQ. Nas feições cênicas, bonecos, ventríloquos, oficina de poesia, apresentação folclórica, oficina de musicalização com material reciclável e por aí vai... Ao lado de tudo isso, mais música, encontro de escritores de livros infantis. Depois palestra sobre poesia, campo em que me atrevi deitar falas. É norma consuetudinária que o poeta só precisa de uma autoridade para falar de seu oficio. Ter vivido. Ter andado amarrado às engrenagens do mundo. Um dia é barro, outro molde, outro tijolo. Demorou nos sofrimentos, beliscou alegrias. Cantou desafinado, mesmo infeliz. Poeta e santo não são muito queridos pela felicidade. Assim fora, não seriam poeta nem santo. Foi com esta autoridade que conversei com a amável gente de Anápolis: artistas, professores, músicos escritores. Não invoquei a formação acadêmica, nem as insones leituras. Acabei falando de mim mesmo. Ou das coisas do mundo que conheci, engoli e depois assoprei, certo de que, apesar do mundo, as coisas de que falei tinham minha voz, meu encanto, meu alumbramento. Acho que me convenci e acabei convencendo outras pessoas que me abraçaram, me fizeram afagos e, sobretudo, me ouviram pela dura extensão de mais de uma hora. Falar de poesia rende boas narrativas. E aqueles que ouvem pensam que o poeta fala das suas vidas, de suas aflições e até de suas utopias, do amor possível, da paz e da imagem misericordiosa do ser humano. Mas o poeta fala é dele mesmo. Não pode ser incriminado, se as pessoas, seus companheiros de jornada, venham a crer que fazem parte de tantas angustias, penas e aventuras que vai tecendo à sua frente, num malabarismo onde se gasta seu ser de névoa e verbo. Distribuindo. Depois, retornando à lucidez intestina, fomos intimados a um almoço, num pequeno restaurante colhedor, onde a proprietária, talvez a cozinheira, servia o prato já feito, com aquelas comidinhas com cheiro e gosto de mãe. Não precisamos comer muito. Limpar os pratos. Podíamos apenas provar alguns bocados para sentir aquela saciedade exsudando calor de fogão e respiração de panelas. Tudo para lembrança. Felizes são essas pessoas que semeiam conhecimento beleza e sensibilidade, sem atrapalhar o furor dos automóveis, as engrenagens das indústrias, o tilintar das moedas no comércio e nos bancos. Entendi que essas coisas não precisam estar separadas. Fazem parte da mesma trama. Da mesma argamassa humana que luta, sonha e quer ser feliz.
Feliz, deve estar Cora Coralina, mineralizada nas areias do Rio vermelho, vegetalizada nos cajus, cajás e mangabas da serra, evanescente na bruma entorpecida de baunilha, coentro e manjericão dos quintais avoengos. Feliz, sei que está a poetiza Sônia Maria Santos, com seu caminhar de pluma entre palavras impiedosamente claras. Com a melodia de seu poema, a delicadeza inteira de seu gesto de ternura e inclusão. A manhã de hoje não terminou. Despertará outras manhãs que sonham alvorecer em Anápolis. E virão nas mãos de seus artistas, seus poetas, seus educadores. Estou certo de que virão.



                                                      Goiânia, 04 de novembro de 2016.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

ADVERTÊNCIA AO PEQUENO DEUS NESTE NATAL

Aidenor Aires

Hospedar no sonho humano ânsia de deus
entre névoas de eternas calmarias, anseias.
Incansável de renascer, renovas o périplo
de ser imanifesto navegando em pobreza
a face crua, a carne, o dia,  o manifesto.
Passageiro sem porto, ou mero aceno,
de carnal imaginário trespassando
o dia absurdo da vida que mascamos.
Piedoso aspirante ao berço glabro, ao mugir
das bestas e planger de sinos e estrelas,
me curvo e encareço-te a estelar mirada:
 não venhas renascer em  forma humana,
como sempre aspira a divindade.
Não há berço, não há casa, não há peito
que amoroso abrigue a tua eternidade.
São tristes e tredos trilhas e caminhos,
entre a terra e o céu não há estradas.
Não poderias, mesmo etéreo e santo,
chegar ao vão terrenal humano, desolado.
No trajeto que traz a luz à terra.
Nem mesmo um deus da dor será poupado.
Repartir o amor do ser amortalhado,
peço-te, não venhas, não sonhes
ver no homem algum lampejo,vida renovada.
É tudo sombra, é tudo morte, é tudo horror
- é tudo escombros e almas calcinadas.
Se teimas, no empíreo, armar as malas
em busca de outros Judas e outras cruzes,
te advirto, cordeiro santo!  Já não há sequer
à tua chegada, uma porta que se abra
um sino que ressoe ou pueril encanto.
Talvez nem chegues à terra em nave maternal.
Anticoncepcionais e exilados tálamos
impedirão o mesmo impulso de fazer-te
 coagulo possível de ser carne.
E se passares a barreira germinal,
não lograrás, quiçá a glória do advento.
Talvez te arremessem, em vagidos, aos dejetos
humanos, aos escuros guetos, destroçado.
Mas se ousares escapar às frias hospedagens
que se armam entre desamor e crimes,
há outros tropeços, valas e abismos
a colher cerce a infantil eternidade que ofereces.
Não desças ali, na pátria oriental
onde ensinaste a paz e acolheste
a sanguinolenta glória do martírio.
Mais que Herodes, os drones, os mísseis, as bombas
do fracasso total da humanidade, certamente
o esmagarão - infância mortiça de Aleppo e de Altamira.
Nem queiras caminhar por sobre as ondas
nos barcos que demandam os campos euros.
Naufrágios perscrutam tais caminhos
fendendo abismos de oceanos  congelados,
braços, peitos e corações humanos.
Habitarás, em pouco, o negro abismo
ou rolarás nas praias, desamparado, frágil
destroço, ou traste, da humana impiedade.
Também não venhas aspirar a mares do sul
ou verdejantes terras equatoriais;
aqui bordeja os campos estendais da fome.
Não que falte a terra, o sol, a chuva, o repetir
florido das sementes e as segas das estações.
A falta, engendram os paióis repletos,
os bonançosos planos onde esbordam
oficiais, patrões, chefes, governos
Indiferentes à dor, ao sofrimento das gentes
nos sufrágios de crimes, sempre enganados.
Assim, se puderes viver em sobressaltos,
entre crimes de esutupro, homicídios e assaltos,
não escaparás de morrer nas filas da assistência,
tão cara a todos e, a todos imposta e comprada.
Assim, para não te atordoar com ameaças
de alvíssaras cruéis, desista de ser deus
para quem a si mesmo se elegeu e goza,
ainda que brevíssima, a ilusão mais triste
de que tudo pode e tudo crê, na estultice
que controla, que manda e que domina.
Deploro teu sentir de deus querendo
oferecer-te  em pão à fome humana...
Mas não venhas, não acicates a tua dor imensa
de oferecer teu sacrifício em aras
de horror, afeitas mais às duras feras
do que a teu formoso e malogrado anseio,
de converter teu gesto e teu olhar divino
em algo que relembre, mesmo na descida -
UMA SAUDADE DE DEUS EM CADA SER HUMANO.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

CELULAR PERDIDO

Como sarna, o celular alastra-se. Mais uma inquietação. Interrompe conversa. Atrapalha enterro. Assusta a missa. Apêndice incômodo. Tudo no corpo tem seu lugar: chapéu para cabeça; sapato para os pés; luvas para as mãos. Mas celular não é coisa humana. Incômodo das prestadoras que amarram o vivente em suas contas e não soltam mais. Humano não foi feito para celular. Não pode ser pendurado nas orelhas. Não é sexy. Não é viril. Mas não consegui ficar fora da besteira geral. Adquiri um. Já são três ou quatro. Estão sempre lançando novos e tornando os velhos imprestáveis. Vejam o que me aconteceu. Ia à Feira de domingo na Vila Nova. Já fui feirante. Até hoje dói uma escoliose de carregar, sobre a coluna ainda tenra, caixas de tomate, mandioca, inhames... As mais pesadas do comércio de verduras. Não sei pra que celular na feira. Só para a mulher ficar ligando e acrescentando itens na lista de compras. Olha, não esqueça o piqui, a gueroba... No meio dos esbarrões, perdi o maldito aparelho. Só dei conta quando abria as sacolas. Alisava a cintura, apalpava os bolsos. Nada. Exalou-se o intruso já feito de alguma amizade. Aflito, comecei a telefonar para o meu número. Lá pras duas da tarde, uma voz respondeu irritada: - Quer parar de me incomodar? Estou trabalhando e você não para de telefonar! Respondi humilde ao arrogante telefonista: - Amigo, você encontrou meu celular. O único jeito é chamar, não? Do outro lado, repreensões: - Escuta moço. Eu achei o seu celular. Não roubei. Não sou ladrão. Sou evangélico. Foi Deus que pôs ele no meu caminho. Só entrego se me der um dinheiro. Ponderei, diante da extorsão, que perdera o tal celular na feira, que poderia dar uma gratificação. Dissesse-me onde encontrá-lo para resgatar o miserável. Do outro lado, a voz impôs condições: - Agora não posso. Estou em Anápolis. Se quiser, posso entregar à noite, na Praça da Bíblia. Mas são cinqüenta pratas. E não precisa ficar ligando. Ás oito da noite eu te ligo pra marcar o lugar da entrega. Após o diálogo nojento me aquietei. Liguei para a prestadora e pedi o bloqueio da linha. Já tinha me esquecido da porcaria, quando o cidadão me chama, por volta de sete e meia da noite, instruindo: - Não te falei que não sou ladrão? Vou entregar seu celular. Esteja na Praça da Bíblia em dez minutos. Estou pegando o ônibus para Caldazinha. Como não sabia este endereço, pedi que ficasse no Frango Gostosão. Afinal, ali é mais claro. Saí correndo. Dez minutos... Bordejava a praça, Tânia ao volante e eu perquirindo sombras. Na luz do frango assado, Gostosão vejo uma figura curvada ao peso de um saco sujo. Gritava e gesticulava. Estou aqui. Sou o Romualdo. Estou com seu celular. Já estava íntimo. Veio sorrindo. Entreguei-lhe uma nota de cinqüenta, passou-me o aparelho e ainda me deixou uma admoestação severa: - Por que você foi bloquear a linha? Não confia em mim não? Já disse que não sou ladrão. Sou evangélico. Agradeci. Peguei o celular. E resmunguei: - Não se esqueça do dízimo do pastor!
  


Texto do Livro Mínimo Olhar.